Cinema

36 filmes para assistir online e de graça na Mostra Internacional de Cinema

De 22 de outubro a 4 de novembro acontecerá a 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, uma das maiores e mais respeitadas mostras de cinema no Brasil. Esse ano o evento acontecerá predominantemente de maneira virtual, devido à pandemia do coronavírus.

E se nessa edição perdemos a experiência imersiva da sala de cinema, por outro lado, ganhamos no alcance: além das sessões acontecerem de maneira virtual, permitindo que pessoas de todo o Brasil possam participar do evento, dos 198 títulos de 71 países que integram o festival, 31 serão exibidos gratuitamente.

Mas antes de partir para os filmes que fazem parte da 44ª edição da Mostra, o site do Itaú Cultural exibirá cinco longas-metragens nacionais premiados em edições anteriores do evento. São eles:

  • Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé;
  • Mulher do Pai, de Cristiane Oliveira;
  • Pitanga, de Beto Brant, Camila Pitanga;
  • Tudo é Projeto, de Joana Mendes da Rocha, Patricia Rubano;
  • Tudo Que Aprendemos Juntos, de Sérgio Machado.

Os filmes estarão disponíveis entre os dias 21 de outubro e 04 de novembro. Para mais informações, acesse: https://www.itaucultural.org.br/


Os filmes gratuitos da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo serão exibidos em diferentes plataformas online. Abaixo você confere a lista de títulos que estarão disponíveis no SP Cine Play:

  • A Arte de Derrubar, de Aslaug Aarsæther e Gunnbjörg Gunnarsdóttir;
  • A Vida na Estrada, de Sidra Rezwan, Salva Soleiman Sedo, Ekhlas Heydar Samubud, Adnan Faroq;
  • Candango: Memórias do Festival, de Lino Meireles;
  • Colômbia Era Nossa, de Jenni Kivistö, Jussi Rastas;
  • DAU. Degeneração, de Ilya Khrzhanovskiy, Ilya Permyakov;
  • Eeb Allay Ooo!, de Prateek Vats;
  • Entre o Céu e a Terra, de Najwa Najjar;
  • Gatilho, de Pavel Ganin;
  • La Planta, de Beto Brant;
  • O Paraíso da Serpente, de Bernardo Arellano;
  • O Pequeno Refugiado, de Batin Ghobadi;
  • Pilatos, de Linda Dombrovszky;
  • Poppie Nongena, de Christiaan Olwagen;
  • Samba de Santo – Resistência Afro-Baiana, de Betão Aguiar;
  • Solo, de Sevgi Hirschhäuser.

Já na plataforma do Sesc Digital, você pode assistir aos seguintes filmes:

  • 1986, de Lothar Herzog;
  • A Herdade, de Tiago Guedes;
  • Cracolândia, de Edu Felistoque;
  • Guerra, de José Oliveira, Marta Ramos;
  • Ladrões de Cinema, de Fernando Coni Campos;
  • Luz Acesa, de Guilherme Coelho;
  • Nimby, de Teemu Nikki;
  • O Caminho Para Moscou, de Micha Lewinsky;
  • O Mágico e o Delegado, de Fernando Coni Campos;
  • Sem Cabeça, de Kaveh Sajjadi Hosseini;
  • Sem Som, de Behrang Dezfoulizadeh;
  • Sobradinho, de Cláudio Marques e Marília Hughes;
  • Uivos São Ouvidos, de Julio Hernandez Cordon;
  • Vencidos da Vida, de Rodrigo Areias;
  • Viagem ao Fim do Mundo, de Fernando Coni Campos;
  • Winona, de Alexandros Voulgaris.

Além desses 31 filmes, para assistir aos títulos selecionados para a Perspectiva Internacional, Competição Novos Diretores e Mostra Brasil, o espectador deverá desembolsar seis reais por visualização, acessando a plataforma Mostra Play.

E mesmo sendo um festival que acontecerá predominantemente online, os filmes possuem uma limitação de visualização. Então, é bom correr para garantir o seu ingresso – inclusive dos filmes gratuitos. As vendas começam na meia-noite do dia 21 para o dia 22, e você pode conferir a sinopse, trailer e mais informações sobre os filmes e sobre o festival no site da 44ª Mostra Internacional de Cinema.

Os bastidores de O Grande Ditador

O Grande Ditador estreou no dia 15 de outubro de 1940 em Nova York e foi o primeiro filme falado de Charles Chaplin. O diretor relutou por anos antes de incorporar a fala sincronizada em suas produções. O Cantor de Jazz, por exemplo, é considerado o primeiro longa com falas e canto sincronizados, e estreou 13 anos antes, em 1927.

Antes da produção de seu próximo filme, Chaplin ainda mantinha suas dúvidas: “E mais uma vez eu me fazia a mesma pergunta deprimente: deveria fazer mais um filme mudo? Eu pensara em vozes possíveis para Carlitos, se ele deveria falar em monossílabos ou só resmungar. Tudo inútil. Se eu falasse, me tornaria um comediante qualquer“.

A ideia de Chaplin interpretar dois personagens – Carlitos e Hitler – foi de Alexander Korda, um produtor e cineasta britânico amigo de Chaplin. O personagem do vagabundo é um barbeiro judeu que havia retornado da primeira guerra com amnésia. Já seu sósia seria o ditador de Tomânia, Adnoid Hynkel – uma clara alusão a Hitler.

O roteiro de 300 páginas foi escrito em 1937 e 1938, período em que Hitler ainda era considerado o grande herói da Alemanha, por ter reestabelecido sua economia e “salvado” o país do comunismo.

Para mim, a coisa mais engraçada do mundo é ridicularizar impostores e os convencidos em altas posições. Quanto maior o impostor a enfrentar, melhores as chances de fazer um filme engraçado. E seria difícil encontrar impostor maior do que Hitler (Charles Chaplin)

A imprensa da época estava receosa com o lançamento do filme, que tinha grandes chances de ser proibido em alguns países. Porém, mesmo com a possibilidade do prejuízo causado pelas restrições na distribuição, Chaplin apostou no filme e financiou sua produção sozinho, com 2 milhões de dólares.

O cineasta Costa-Gavras destaca como o roteiro foi visionário em diversos aspectos. O filme abordou os campos de concentração e até mesmo o Zyklon B, pesticida utilizado nas câmaras de gás para o extermínio em massa dos prisioneiros. Foram situações que aconteceram simultaneamente a escrita do roteiro, mas que não eram necessariamente de conhecimento público.

Ainda no período de produção de O Grande Ditador, outros filmes de Chaplin foram banidos pelos regimes autoritários da Alemanha e Itália, e a propaganda nazista fez questão de disseminar que Chaplin era judeu – o que era mentira. No mesmo período, o diretor fez inúmeras doações financeiras a grupos que ajudavam judeus alemães a escapar da Alemanha nazista.

Não sou judeu. Não tenho uma gota de sangue judeu. Nunca protestei, quando disseram que eu era judeu porque eu teria orgulho de ser (Charles Chaplin)

Parte do filme acontece em um gueto judeu, humanizando os personagens que sofrem com o antissemitismo crescente no país. Hannah, interpretada por Paulette Goddard, que forma o par romântico com o barbeiro, é, de todo o filme, a personagem mais combatente contra as violências sofridas no bairro. É ela quem enfrenta os militares, seja fisicamente ou no diálogo. E após o icônico discurso do barbeiro, é de Hanna o plano final do filme. Sua luta pela “terra prometida”, um lugar em que poderia encontrar paz, parece se concretizar em seu sorriso nos segundos finais da projeção.

Confira abaixo o filme na íntegra:


Referências

Filmes:
O Grande Ditador (1940), dirigido por Charles Chaplin
Chaplin Today: O Grande Ditador (2003), produzido por Serge Toubiana

Como eles fizeram um filme sobre o Facebook?

Dez anos após o lançamento de The Social Network (2010), as redes sociais ainda são pauta do debate público. Agora, questionadas sobre o impacto que elas têm causado na vida dos usuários e até mesmo na democracia. The Social Dilemma (2020), recém estreado na Netflix, foi um dos responsáveis por reaquecer o assunto. No último mês, pesquisas de “desativar/excluir o Facebook” cresceram em 250% no Google.

Apesar disso, o Facebook se mantém no topo do ranking de redes sociais mais utilizadas, com mais de 2 bilhões de usuários ativos. E em 2010, a história de sua criação inspirou o roteirista Aaron Sorkin e o diretor David Fincher a transpor para as telas o início da carreira de sucesso de Mark Zuckerberg.

O filme foi indicado a 8 Oscar, vencendo nas categorias de melhor roteiro adaptado, melhor trilha sonora e melhor montagem. Mas, afinal, como eles fizeram um filme sobre o Facebook?

A produção teve três semanas de ensaios. Nessas reuniões com o elenco, o roteiro foi revisado minuciosamente, recebendo inclusive contribuições dos atores. Para Jesse Eisenberg, que interpreta Mark Zuckerberg, os ensaios foram importantes para que ele pudesse entender o que havia por trás das palavras do roteiro, quais eram as reais motivações de David Fincher e de Aaron Sorkin com aquele texto, e como isso poderia ajudá-lo a compor seu personagem.

Ainda nos ensaios, Jesse e Andrew Garfield (Eduardo Saverin) passavam horas conversando como se fossem os personagens, sem seguir o roteiro. Todo esse preparo do elenco ainda na pré-produção, ajuda a compor relações mais críveis e reais, já que parte do elenco nunca haviam trabalhado juntos, e nas telas precisam aparentar uma forte amizade.

Após os ensaios, todo o elenco passou pelo teste de figurino e maquiagem em frente às câmeras. Nessa etapa, a produção pode ter uma primeira materialização visual daqueles personagens, com suas principais roupas e acessórios. A colorização desse material primário levou em conta, inclusive, a concepção de Fincher com relação ao tratamento de cor do material final. Afinal, de acordo com o tratamento final da imagem, cores e tons podem variar – e muito – do objeto original.

As filmagens foram divididas entre Boston e Los Angeles, por uma única razão: as locações. Como parte do longa se passa em Harvard, foi mais viável para a produção realizar as gravações na própria universidade do que reconstruir parte dela em estúdio ou apostar no chroma key. O rio Charles River de Boston também foi utilizado nas gravações das cenas dos treinos de remo.

Um detalhe foi que a produção ultrapassou o limite de diárias que foram combinadas com a universidade, e realizou algumas gravações clandestinas. Além do risco de terem que interromper as filmagens caso fossem descobertos, nessas filmagens a equipe não contava com o acompanhamento dos seguranças do local – o que representava um alto risco, levando em conta o preço dos equipamentos utilizados nas gravações.

E apesar de ser um filme naturalista, com um registro direto dos personagens, a pós-produção também teve muito trabalho, principalmente nas cenas dos gêmeos Winklevoss. Apesar de Cameron e Tyler Winklevoss serem interpretados por Armie Hammer e Josh Pence, Josh teve seu rosto substituído pelo de Hammer com a ajuda da equipe de efeitos especiais. Mas essa alteração facial não diminuiu em nada o trabalho dos dois atores, que se prepararam por dez meses com um professor de atuação que desenvolveu em ambos padrões de movimentação e de fala idênticos, semelhantes aos que gêmeos reais possuem.

O processo de substituição do rosto de Josh pelo de Armie aconteceu em quatro etapas: rastrear o rosto do dublê, analisar os padrões de iluminação, reproduzir o mesmo padrão de luz em estúdio com um mecanismo de iluminação controlado por um computador e, por fim, projetar o novo rosto no material original.

Em determinadas cenas, Armie Hammer trabalhava em dobro: a mesma ação era repetida duas vezes, uma com ele no papel de Cameron e outra no papel de Tyler – e na pós-produção, os takes eram mesclados.

E se David Fincher é conhecido na indústria por repetir exaustivamente os mesmos takes até encontrar o perfeito, com esse filme não foi diferente. A cena de abertura, do diálogo de Mark com Erica, por exemplo, teve 99 takes. E, conhecendo o diretor, para a icônica cena em que Eduardo destrói o computador de Mark, a equipe preparou com antecedência dezenas de laptops pra serem quebrados.


Referências

Filmes:
A Rede Social (2010), dirigido por David Fincher
How Did They Ever Make a Movie of Facebook? (2011), dirigido por David Prior

Notícias:
Buscas por “excluir Facebook” crescem 250% após filme “O Dilema das Redes”

Novas regras do Oscar priorizam representatividade e inclusão

Após anos de pedidos por mais diversidade na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelos Oscar, foram anunciadas novas regras que impactam a premiação a partir de 2022. O anúncio aconteceu no dia 8 de setembro, em uma publicação oficial no site do evento.

No meio do ano, também visando uma maior diversidade, a Academia já havia anunciado a inclusão de 819 novos membros. Desse número, 368 são mulheres, 294 são integrantes de minorias étnicas ou raciais e quase metade é composta por estrangeiros, como Mariana Oliva e Tiago Pavan, os brasileiros produtores de Democracia em Vertigem. A partir dessa inclusão, dos mais de 9 mil membros atuais da Academia, 33% são mulheres e 19% são membros não-brancos.

Agora, propondo uma maior visibilidade de pessoas não-brancas, mulheres, LGBTs, latinos e pessoas com deficiência nas produções que concorrem à estatueta de Melhor Filme, o Oscar anunciou quatro padrões que devem nortear as produções a partir de agora, na seleção de trabalhadores que atuarão na frente e atrás das câmeras. Quem quiser concorrer na categoria de Melhor Filme, deve atender a pelo menos duas dessas exigências:


Padrão A: representatividade de temas e narrativas na tela (1 de 3 critérios necessários)

  • A1) Pelo menos um dos atores principais ou coadjuvantes de destaque deve pertencer a uma etnia ou grupo racial pouco representado (asiático, latino/hispânico, negro, nativo-americano, norte-africano, nativo havaiano)
  • A2) Pelo menos 30% de todo o elenco em papéis secundários ou menores devem pertencer a dois grupos pouco representados (mulheres, grupos raciais ou étnicos, LGBTQI+, pessoas com deficiência física ou cognitiva)
  • A3) A história principal, tema ou narrativa deve ser centrada em um grupo pouco representado

Padrão B: Liderança criativa e equipe do projeto (1 de 3 critérios necessários)

  • B1) Pelo menos dois membros da liderança criativa e chefes de departamento – diretor de elenco, cinematógrafo, compositor, figurinista, diretor, editor, cabelereiro, maquiador, produtor, designer de produção, decorador de set, editor de som, supervisor de efeitos visuais, roteirista – devem pertencer a um grupo pouco representado e pelo menos uma posição deve pertencer a uma etnia ou grupo racial pouco representado.
  • B2) Pelo menos seis membros da equipe (com exceção de Produtor Associado) devem pertencer a um grupo pouco representado
  • B3) Pelo menos 30% da equipe técnica inteira deve pertencer a um grupo pouco representado

Padrão C: Acesso à Indústria e criação de oportunidades (os dois critérios são necessários)

  • C1) O produtor ou distribuidor do filme deve financiar aprendizado/estágio remunerado para pessoas de grupos pouco representados; grandes estúdios devem ter presença substancial de aprendizes/estagiários assalariados de grupos pouco representados na maior parte dos departamentos (desenvolvimento/pré-produção, produção presencial, pós-produção, música, efeitos visuais, aquisições, administração, distribuição, marketing e publicidade); estúdios pequenos e independentes devem ter pelo menos dois aprendizes/estagiários assalariados de grupos pouco representados (pelo menos um de um grupo étnico ou racial pouco representado) em pelo menos um dos departamentos
  • C2) A companhia responsável pela produção, distribuição e financiamento do filme deve oferecer oportunidades de emprego ou capacitação para pessoas de grupos pouco representados.

Padrão D: Desenvolvimento com o público

  • D1) O estúdio tem executivos sênior de grupos pouco representados (pelo menos um de um grupo étnico ou racial pouco representado) em suas equipes de marketing, publicidade e distribuição.

Para o crítico Pablo Villaça, essas medidas indicam um início para maior representatividade de minorias na premiação: “Estas regras vão gerar o xorôrô habitual por parte dos suspeitos habituais. E, claro, num mundo ideal não deveriam existir. Mas não estamos num mundo ideal e a maior representatividade de minorias tem que começar de algum modo – se não naturalmente, então impulsionada por regras. É claro que a Academia não pode obrigar nenhum produtor a seguir estas regras; no entanto, se ele quiser concorrer a um Oscar, deverá seguir os critérios da organização que o distribui. Certíssimo.“.


Referências

Academy establishes representation and inclusion standards for Oscars® eligibility
Academia cria regras de representatividade para indicados ao Oscar
Por mais diversidade no Oscar, Academia anuncia 819 novos membros, incluindo brasileiros

A restauração de M, O Vampiro de Dusseldorf

Você já conferiu aqui em nosso blog a jornada de restauração de Metrópolis (1927), a obra máxima do expressionismo alemão. Mas uma outra obra, também de Fritz Lang, teve grande destaque no movimento: M, O Vampiro de Dusseldorf (1931). A partir do documentário The Physical History of M, apresentamos hoje algumas curiosidades sobre o processo de restauração desse grande filme.

Em uma primeira visada, o que nos chama a atenção é o formato da tela. A proporção parece ainda mais quadrada que o famoso 4×3 (1.33:1) dos antigos televisores. Isso acontece porque o filme foi rodado entre duas diferentes eras: a do cinema mudo e a dos novos padrões hollywoodianos de filmagem. Enquanto os filmes mudos utilizavam a proporção 1.33:1 (primeira película da imagem abaixo), a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood estabeleceu, em 1930, uma padronização da proporção das produções de 1.33:1 para 1.37:1 (segunda película da imagem abaixo), permitindo a partir da mudança a inserção da banda sonora na tira do filme.

Porém, como M foi rodado nesse período de transição, o filme utilizou o padrão de 1.33:1 e achatou a imagem do filme para encaixar ali a banda sonora, resultando em uma imagem mais quadrangular, em 1.19:1 (terceira película da imagem acima).

Mas esse passo para o cinema falado não influenciou apenas o registro na película. Enquanto o cinema mudo podia simplesmente substituir as cartelas (intertíulos) narrativos ou de diálogos por outro idioma, pra distribuí-los pelo mundo todo, com o cinema falado o filme precisava passar por uma dublagem.

E mais do que simplesmente dublar as cenas, atores de outros países foram contratados para reencenar determinados diálogos no idioma local. Abaixo você confere frames da conversa entre o ministro e o delegado de polícia. Ao lado direito está a versão original do filme, em alemão. Já ao lado esquerdo, a versão reencenada por atores franceses.

Alguns textos diegéticos também foram refilmados, como cartazes, cartas… O anúncio de “procurado” foi uma dessas cenas regravadas com o texto traduzido para o francês (a esquerda). Essa é uma técnica utilizada até hoje por estúdios de animação, que alteram o idioma dos textos presentes na diegese de acordo com o país em que o filme é distribuído, mas é uma prática pouco comum em live actions.

A cena final do filme foi regravada, inclusive, com o mesmo ator. Peter Lorre, que interpreta Hans Beckert, regravou suas falas em francês, porém não há informações se foi o próprio Fritz Lang que realizou a direção dessas tomadas alternativas, uma vez que tanto os enquadramentos quanto a iluminação são diferentes da versão final em alemão.

Além dessas pequenas alterações referentes ao idioma, o final do filme foi alterado para uma versão mais “feliz”. O plano final das mães chorando em luto foi substituído por uma cena de pais felizes observado suas crianças brincando.

Em 1937, o filme foi banido pelos nazistas, assim que Lang fugiu da Alemanha – indo fazer filmes em Hollywood. E foram várias as tentativas de restauração da obra, muitas em baixa qualidade, que não levavam em conta a proporção de tela diferenciada utilizada no filme e essas diferentes “versões” do filmes.

Até que os negativos originais de câmera foram descobertos no Arquivo Estadual de Berlim – muito danificados e sem um dos rolos. Ao combinar esse material com as cópias da Cinemateca Suíça e do Museu de Cinema da Holanda, o laboratório L’Immagine Ritrovata de Bolonha pôde criar uma nova cópia de preservação do filme. Apesar disso, ainda não podemos considerar essa a versão final da restauração do filme.

A partir dos documentos da cúpula de censura, sabemos que a fala de Frau Beckmann que encerra o filme, dizendo “vocês”, na verdade era originalmente “vocês também”. Além disso, os mesmos documentos apontam que o filme tinha a duração de 117 minutos, e a versão mais longa que temos disponível tem 110 minutos.

Nos resta apenas a esperança de que uma cópia dessa versão original completa ainda seja encontrada.


Referências

Filmes:
M, O Vampiro de Dusseldorf (1931), dirigido por Fritz Lang
The Physical History of M – extra do filme presente na edição da Criterion Collection

As entrevistas de Hitchcock com Truffaut

São raros os encontros entre grandes cineastas que ficaram imortalizados em livros ou documentários. Para nossa sorte, a série de entrevistas de um dos maiores cineastas franceses – François Truffaut – com um dos gênios do suspense – Alfred Hitchcock – deu origem a um dos poucos livros verdadeiramente obrigatórios para os estudantes de cinema: Hitchcock/Truffaut.

Em 1962, os cineastas combinaram a realização dessas entrevistas, em que, durante oito dias, em uma sala dos estúdios da Universal, em Los Angeles, Hitchcock falaria sobre o processo de concepção de seus filmes. O encontro foi sugestão de Truffaut, que tinha o desejo de escrever um livro sobre o mestre do suspense.

Fraçois Truffaut fez parte dos Cahiers du Cinéma, uma revista de crítica cinematográfica francesa que enxergava um autorismo na produção cinematográfica norte-americana, como Orson Welles e Alfred Hitchcock. A crítica americana e europeia, porém, não enxergava os mesmos atributos no cineasta, e foi isso que despertou a vontade de Truffaut em realizar essas entrevistas e transformá-las em livro.

Na carta que enviou a Hitchcock, ele descreveu o diretor como “um Hitchcock que todos reconhecerão como o melhor diretor do mundo“, e recebeu como resposta: “Caro sr. Truffaut, sua carta me fez chorar“. Após essa série de entrevistas, a amizade entre os cineastas se fortaleceu. Eles se escreviam, liam os roteiros um do outro, opinavam nos enredos, na escolha do elenco e exibiam seus filmes um para o outro.

Hitchcock/Truffaut foi publicado pela primeira vez em 1967 e narrava toda a trajetória do cineasta em formato de entrevistas. Filme a filme, o Hitchcock comentou sobre os aspectos formais de suas obras, apresentou seus contextos de produção, da elaboração do roteiro até o lançamento, as dificuldades técnicas, sua relação com os atores.

No prefácio da edição brasileira do livro, Ismail Xavier – um dos grandes pesquisadores de cinema no Brasil – relata a importância da obra: “O diálogo Truffaut/Hitchcock marca a idade de ouro da cinefilia como religião produtiva, na França, na Itália e na América Latina, fundamental no avanço do cinema moderno. A conjunção foi espacial, pois os cineastas que lideraram as transformações, ao proclamarem as virtudes intelectuais e morais da mise-en-scène, não sonegaram sua reverência aos mestres do cinema clássico, chegando, no caso de Hitchcock, a definir uma quase-identidade entre a compreensão de sua obra e a do próprio cinema” (Ismail Xavier).

Em 1993, o historiador Serge Toubiana encontrou na antiga produtora de Truffaut uma caixa repleta de fitas que contabilizavam as 27 horas de gravações com 500 perguntas que o cineasta francês havia feito a Hitchcock. Como forma de homenagem ao livro, Kent Jones reuniu esse material bruto e dirigiu um documentário, lançado em 2015, também intitulado Hitchcock/Truffaut.

No filme, o diretor reúne grandes cineastas, como Martin Scorsese, David Fincher, Richard Linklater e Wes Anderson, que falam sobre a influência de Hitchcock em suas obras e contam suas histórias pessoais com o livro. Além disso, o diretor ilustra os diálogos com as cenas dos filmes que são comentados, possibilitando uma nova experiência com os áudios das entrevistas.

Tanto Hitchcock quanto Truffaut traçam análises completas dos filmes e de cenas específicas. Em certo ponto, Hitchcock revela, até mesmo, um furo no roteiro de Um Corpo Que Cai/Vertigo (1958) – eleito o melhor filme de todos os tempos pela Sight and Sound do Festival de Cinema Britânico (BFI):

Truffaut: O que incomoda o senhor?
Hitchcock: O buraco na história. O marido que empurrou a mulher da torre. Como ele sabia que Stewart não ia subir a escada?

O livro foi relançado pela Companhia das Letras e pode ser facilmente encontrado nas livrarias, já o documentário ainda não chegou oficialmente no Brasil, mas abaixo você pode conferir o trailer:


Referências

Livros:
Hitchcock/Truffaut (1967), escrito por François Truffaut

Filmes:
Hitchcock/Truffaut (2015), dirigido por Kent Jones

18 anos de Cidade de Deus

Melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor fotografia. Foram essas as categorias em que o Cidade de Deus (2002) concorreu no Oscar de 2004. Um dos filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos, principalmente por essa repercussão no exterior, completa 18 anos essa semana.

Apesar de não ter levado nenhuma das estatuetas, perdendo em três categorias para O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003), Daniel Rezende venceu o BAFTA no ano anterior por seu trabalho na montagem do filme. E sua função se destaca no filme desde a cena de abertura.

Pega a galinha!

Enquanto ainda somos apresentados aos créditos iniciais da equipe de produção, acompanhamos uma cena de perseguição incomum nas ruas da Cidade de Deus. A protagonista? Uma galinha. O ritmo frenético da montagem está alinhado ao samba diegético da cena, e o efeito kuleshov, criado na alternância dos planos em close da galinha com os planos de outras galinhas sendo depenadas, cortadas e cozidas, é capaz de nos convencer até mesmo de que nossa protagonista é uma excelente atriz.

Para criar essa perseguição quase em primeira pessoa (ou em primeira galinha), o fotógrafo César Charlone acoplou a câmera a um cabo de vassoura – o que deu maior maleabilidade ao seu manuseio, além de permitir que a câmera ficasse quase rente ao chão, e assim mais próxima ao animal.

Confira a cena abaixo:


10 anos depois

Apesar de ter recebido um grande reconhecimento no Brasil e no mundo, alguns dos atores do filme pouco se beneficiaram desse sucesso. Em Cidade de Deus – 10 anos depois, um documentário que entrevista parte do elenco uma década após o lançamento do filme, acompanhamos as transformações que o filme provocou na vida daqueles jovens atores.

Nas entrevistas, os atores relembram suas expectativas da época com o filme, de que aquela poderia ser uma experiência que mudaria suas vidas. Eles recordam, inclusive, quanto ganharam para atuar na produção. Dependendo da importância do personagem na trama, o cachê variava de R$1500 a R$10 mil.

Em 2015, Alexandre Rodrigues, o Buscapé, mobilizou uma discussão nas redes acerca do racismo nas artes cênicas após revelar que virou motorista de aplicativo por um período para complementar sua renda após não conseguir mais nenhum papel como ator.

Eles só se lembram de mim para trabalhos que requeiram meu tipo físico específico — ou seja, papéis de negro. Obviamente, não há como eu fazer outro tipo, nem acho que a falta de papéis seja por causa da minha cor de pele. Não posso, contudo, ser hipócrita: sei que consegui trabalhos na Globo por ser negro. Como nas novelas Sinhá Moça e Cabocla, nas quais interpretei escravos. (Alexandre Rodrigues)

Na época em que assinou seu contrato com a produção, o ator pôde escolher entre receber o cachê de 10 mil reais ou entrar com uma participação nos lucros da bilheteria do filme. No documentário, o ator lamenta ter optado pelo cachê, uma vez que o filme arrecadou mais de 30 milhões de dólares.

Leandro Firmino, o Zé Pequeno, também teve poucas oportunidades como ator após o filme. No Pânico na Tv o ator reencarnava o mesmo personagem, repetindo os padrões de violência do Zé Pequeno em situações cotidianas, reforçando um estereótipo do homem negro violento. No mesmo programa, o ator protagonizou também uma “pegadinha” em que se caracterizava como um assaltante.

Eu acho que tem que ter mais o negro contando a história do negro. (Leandro Firmino)

Para Alice Braga, sobrinha de Sônia Braga, as oportunidades parecem ter sido diferentes. Mesmo sendo uma personagem secundária, sua participação no filme aumentou sua visibilidade como atriz. Em 2007, ela contracenou com Will Smith em Eu Sou a Lenda (2007), filme que abriu portas para sua carreira internacional.

Cidade de Deus – 10 anos depois está disponível na Netflix, e abaixo você pode conferir o trailer:


Referências

Filmes:
Cidade de Deus (2002), dirigido por Fernando Meirelles
Cidade de Deus – 10 anos depois (2013), dirigido por Cavi Borges, Luciano Vidigal

Qual a importância da cinemateca brasileira?

A Cinemateca Brasileira é a instituição responsável pela preservação e difusão da produção audiovisual brasileira.

Hoje, todos filmes produzidos a partir de recursos públicos, como os financiados por leis de incentivo, tem como parte da prestação de contas a entrega do material audiovisual às cinematecas. Esta cópia tem a finalidade de preservação dessas obras que integram nosso patrimônio cultural para reproduções futuras, já que está armazenado em condições ideais.

E essa preservação não contempla apenas filmes exibidos no cinema. Obras de televisão, de internet, publicitárias e até amadoras também são conservadas nesse espaço. Todos esses materiais, seja recebido por depósito legal, voluntário ou doação, são registros de uma época, e serão identificados e catalogados para que futuros espectadores e pesquisadores possam acessá-los.

Um acervo da história do (nosso) cinema

A Cinemateca Brasileira, localizada em São Paulo, é a mais antiga instituição de cinema do Brasil e tem o maior acervo relacionado ao tema da América do Sul. São 250 mil rolos de filmes e mais de um milhão de documentos, como livros, fotos, roteiro e cartazes.

Dentre esses mais de 100 anos de imagens, há registros raríssimos, como reportagens da extinta TV Tupi – primeira emissora brasileira – distribuídas em mais de 180 mil rolos de filmes em 16 milímetros. A filmografia de grandes cineastas também está armazenada no local.

O projeto Coleção Glauber Rocha, por exemplo, possibilitou a parceria da Cinemateca com instituições do mundo todo para a restauração das obras do diretor. Além do já restaurado Deus e o Diabo na Terra do Sol, foram contemplados filmes como Barravento, Terra em Transe, O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, A Idade da Terra e O Leão de Sete Cabeças.

Além da importância histórica de preservação cultural dessa cinematografia, essa restauração é resultado de uma demanda nacional e internacional de acesso a esses filmes em boa qualidade. O sucesso na disseminação dessas obras em festivais, exibições em salas comerciais de cinema e em DVD é prova disso. Só Terra em Transe recebeu 10 mil espectadores em duas semanas de exibição nos cinemas após a restauração.

E não é só o nosso país que é contemplado por essa instituição. Em 2002, O Castelo Vogelod, de F.W. Murnau, foi restaurado pela fundação Friedrich Wilhelm-Murnau a partir da combinação de um negativo da Bundesarchiv-Filmarchiv, em Berlim, e de uma cópia em nitrato da nossa cinemateca.

Nas mãos da sorte

Apesar de seu reconhecimento internacional, a Cinemateca Brasileira vem enfrentando a maior crise desde a sua fundação, em 1946. Em maio de 2020, Regina Duarte foi anunciada como substituta de Olga Futemma, diretora da Cinemateca. Olga, que é graduada e mestre em Cinema pela Universidade de São Paulo, trabalhava na instituição há 36 anos e esteve envolvida na organização do arquivo pessoal de Glauber Rocha.

Em agosto, a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto informou a demissão de todos os funcionários da instituição. São profissionais da área de preservação, pesquisa, documentação, difusão… O anúncio aconteceu uma semana após a entrega das chaves da Cinemateca Brasileira à União, atendendo a um pedido da Secretaria especial da Cultura, que atualmente é comandada pelo ator Mario Frias, que já trabalhou em novelas como Os Mutantes, da Rede Record.

A associação, que foi a mantenedora da Cinemateca desde 2018, afirma que o Executivo não repassou verba para a instituição neste ano, e que o atual governo acumulou uma dívida de 14 milhões de reais em atraso relativa ao orçamento. Somente em agosto que o governo anunciou a liberação de apenas 20% desse valor para contratos de manutenção. E esse descaso já teve efeitos imediatos, como os danos a 113.000 cópias de DVDs, causados por uma enchente no depósito da cinemateca, em fevereiro desse ano.

Além disso, dos 250 mil rolos de filmes armazenados no local, mais de 2500 são compostos por nitrato de celulose, que são altamente inflamáveis e correm o risco de entrar em autocombustão se não refrigerados corretamente. Em fevereiro de 2016 a cinemateca enfrentou seu quarto incêndio, que destruiu por completo 270 títulos. Esse histórico nos mostra que a constante falta de investimentos pode fadar esse espaço fundamental para a história do cinema mundial ao mesmo destino de nosso Museu Nacional.

Os 5 melhores filmes brasileiros, segundo a crítica

Em setembro de 2016, a ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema publicou um livro que elenca os 100 melhores filmes brasileiros. Elaborada por críticos e jornalistas membros da associação de todo o país, 379 filmes foram citados durante o ranqueamento.

Confira abaixo quais são os cinco primeiros filmes da lista, os motivos que fazem esses filmes tão relevantes para a história de nosso cinema e excertos de algumas críticas presentes no livro.


5. Terra em Transe (1967)


Direção: Glauber Rocha

Vencedor do prêmio da federação da crítica internacional (FIPRESCI) no Festival de Cannes de 1967, Terra em Transe foi visto como um manifesto prático da Estética da Fome do diretor – abordada por nós no texto Glauber Rocha e a sua Estética da Fome. Produzido em reação ao golpe de 64, o filme chegou a ser proibido em território nacional por conta de sua subversão e irreverência com a igreja, mas isso não o impediu de impactar a sociedade da época, inspirando até mesmo o Tropicalismo.

Glauber teve, com este filme, a visão gênia – e trágica – das estruturas mais fundas da sociedade brasileira. Aquelas que nos definem, para o bem e para o mal. Visionário, rigoroso, inventivo, Terra em Transe causou forte impacto na discussão política de sua época e na cultura nacional, tendo servido como deflagrador do tropicalismo. É um divisor de águas, uma cisão, uma cicatriz aberta na cultura brasileira. Depois dele, nada foi igual. Para citar uma frase de Cacá Diegues: Terra em Transe continua em cartaz até hoje.” (Luiz Fernando Zanin Oricchio)

O filme está disponível em plataformas como Globosatplay e Vivoplay.


4. Cabra Marcado Para Morrer (1984)


Direção: Eduardo Coutinho

O único documentário do top 5 – e consequentemente eleito pela ABRACCINE como o melhor documentário brasileiro -, Cabra Marcado Para Morrer teve sua produção interrompida em 1964, devido ao golpe militar. 17 anos depois, as filmagens foram retomadas de maneira reinventada. O longa-metragem que inicialmente trataria apenas da vida e morte de João Pedro Teixeira, fundador da Liga Camponesa de Sapé, quando foi retomado incorporou toda sua jornada de produção e as mudanças políticas no Brasil.

Cabra Marcado Para Morrer se constrói através de um constante diálogo entre os seus dois tempos: 1962/64 e 1981/82. No Cabra-60, o cinema pretendia engolir a realidade. (…) Já no Cabra-80, é a realidade que se apresenta para engolir o cinema. (…) Se o Cabra-60 era fruto da vontade de um grupo (o CPC) de expressar a vivência popular, o Cabra-80 é o desejo de um homem (Coutinho) de abrir-se à vivência popular propriamente dita“. (Carlos Alberto Mattos)

Você pode assistir ao filme no Tamanduá.tv.


3. Vidas Secas (1963)


Direção: Nelson Pereira dos Santos

Baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos, a adaptação de Nelson Pereira dos Santos para as telas foi indicada à Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1964 e foi o único filme brasileiro indicado pelo British Film Institute como uma das 360 obras fundamentais em uma cinemateca.

Na ficção do filme, a dureza do presente é uma condição a ser superada pelos personagens. Há esperança, sempre houve esperança nos livros de Graciliano e nos filmes de Nelson Pereira, o que não significa que os problemas se solucionavam da noite para o dia. No serão de Vidas Secas, noites e dias se fundem num mesmo cenário de morte; nele o homem se integra à natureza, seu sofrimento é compartilhado com a terra. A morte de um animal é semelhante à morte de um parente pela qual se chora, mas sem se alongar nas lágrimas. É famosa a triste beleza da cena que mostra a morte de Baleia e que prova que a seca não permite que se perca tempo com qualquer coisa que não seja a busca por trabalho, por terras verdes, por mais vida” (André Miranda)


2. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)


Direção: Glauber Rocha

Único diretor que garantiu duas vagas no top 5, três anos antes de Terra em Transe, Glauber Rocha havia lançado Deus e o Diabo na Terra do Sol – que assim como Vidas Secas disputou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1964. Um dos filmes favoritos de Bong Joon-ho e Martin Scorsese, o longa é um marco do Cinema Novo e, assim como Terra em Transe, apresenta os princípios da estética da fome.

A câmera de Glauber realiza com Deus e o Diabo a estética política do cinema nacional. Nesse filme, sua arte expõe de forma revolucionária certa visão do nacionalidade para o Brasil e para o mundo. Em sua perspectiva, uma das finalidades do cinema é a de se pautar por uma estética que revele de forma original uma cultura em estado bruto. Com isso, ele acreditava contribuir para transformar a sociedade e a política no país. Em decorrência, com seu processo criativo ele encontrou no filme a possibilidade de intervenção histórica“. (Humberto Pereira da Silva)

O filme está disponível no Globosatplay.


1. Limite (1931)


Direção: Mario Peixoto

O primeiríssimo lugar é de Limite (1931), de Mario Peixoto. Realizado quando o diretor tinha apenas 22 anos, esse filme poético não fica atrás dos clássicos das vanguardas europeias, como o surrealismo. O filme, que se afasta dos ideais do cinema narrativo clássico, por muitos anos foi considerada uma “obra secreta“, por conta do difícil acesso após a exibição no Cine Capitólio, na Cinelândia do Rio de Janeiro. O filme que nunca havia sido exibido comercialmente circulou em cópias clandestinas em vhs por muito tempo, e só recentemente foi restaurado pela Cinemateca Brasileira e pelo laboratório italiano L’Immagine Ritrovata da Fondazione Cineteca di Bologna, graças a uma iniciativa da World Cinema Foundation, instituição criada por Martin Scorsese.

Limite é um grande filme. Para o espectador de hoje é uma obra difícil, árdua, embora ele possa ser seduzido pela plasticidade do lento movimento que propõe. Há na película uma predominância da encenação sobre a intriga, sobre a história. E o que importa é o modo de pôr em imagem a ideia do diretor. O cinema de Mario Peixoto é um cinema poético. Tem necessariamente a audácia da imagem. E da imagem como metáfora“. (Enéas de Souza)

O filme está disponível gratuitamente no Libreflix.


O top 10 é constituído também por:

  1. O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla;
  2. São Paulo S/A (1965), de Luís Sérgio Person;
  3. Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles;
  4. O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte;
  5. Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade.

No site da ABRACCINE você confere a lista completa.

Você já assistiu a algum desses filmes? Tem um preferido? Conta pra gente aqui nos comentários e acompanhe nossas redes – Facebook e Instagram – para não perder nenhum texto sobre cinema.


Referências

Livros:
100 melhores filmes brasileiros, de Paulo Henrique Silva (org)

Os storyboards de Martin Scorsese

Durante a decupagem de um filme – processo de pré-produção da divisão das cenas em planos – o diretor é responsável por transformar o roteiro escrito em imagens, e assim definir esteticamente como cada cena será registrada: o tipo de enquadramento, angulação, movimento de câmera…

E nesse processo, muitos diretores preferem desenhar esse esboço de cada plano, originando o que chamanos no cinema de storyboard. O resultado final é quase uma história em quadrinhos, mas sem balões de falas e com diversas marcações de movimentos de personagens e de câmera.

Martin Scorsese é um desses diretores que vê no processo de criação do storyboard o nascimento de seu filme. Sua relação com o desenho vem desde a infância. Por conta das complicações causadas pela asma, impossibilitado de realizar exercícios físicos, ele se distraía criando desenhos e inventando histórias.

Na criação de storyboard para seus filmes ele encontra duas principais vantagens: a preparação e a segurança. A primeira etapa diz respeito ao processo de concepção visual do filme, de sua interpretação de como aquela história que está em sua cabeça será enxergada por outros.

A segunda vantagem é a segurança que o diretor sente ao chegar no set e poder explicar com clareza para sua equipe sua proposta. Mas o próprio diretor insiste que essa segurança não deve ser uma muleta, mas apenas uma base: “tenho que me desprender dessa segurança. Ou seja, acho que sei o que quero, mas gostaria de ver o que mais consigo com os atores, o operador de câmera, com todos“.

Selecionamos alguns excertos dos storyboards de Taxi Driver (1976) e colocamos lado a lado com os frames do filme:

Confira também um paralelo em vídeo entre o storyboard de Touro Indomável (1980) e os planos do filme:


Referências

Filmes:
Taxi Driver (1976), dirigido por Martin Scorsese
Touro Indomável (1980), dirigido por Martin Scorsese