A catarse nas artes e no cinema

Confira o que é catarse e como podemos aplicar esse conceito aristotélico ao cinema clássico.

Rafael Alessandro 5 anos atrás

Quando Aristóteles tratou na Poética da catarse que a tragédia grega promovia na audiência, ele se dedicou a descrever o efeito de purificação ou purgação das emoções que a arte teria em seus espectadores. A tragédia operaria como uma medicina da alma ao apresentar/representar uma imitação (mimesis) de uma ação que teria como finalidade principal a cura.

a tragédia é um mimeses de uma ação nobre, completa e de certa extensão, em linguagem embelezada separadamente pelas diversas formas de cada parte; é mimeses que se realiza por agentes e não por uma narrativa, e que conduz, através da piedade e do temor para a purificação de tais emoções. (Aristóteles)

E essa purificação, segundo Umberto Eco, não residiria no texto ou na representação da tragédia, mas em sua recepção – no espectador que, ao experenciar as emoções presentes naquela obra, seria capaz de se libertar de suas próprias. Dessa forma, o espectador, ao entrar no teatro, sentiria todas aquelas emoções que foram representadas diante dele. E ao senti-las, ele seria capaz de se libertar dessas emoções, e assim, se purificar, mesmo que não tivesse realmente vivido aquela experiência encenada.

E a tragédia sempre teve uma finalidade educativa bem definida, formadora de caráter e das virtudes do público: “o espectador deve aprender, pela imitação (pelo espetáculo oferecido), o bem e o mal das paixões, o que podem fazer de terrível ou benéfico para os humanos” (Chauí).

E o cinema - ou melhor, o cinema clássico -, que surgiu milênios após o teatro grego, parece ainda se apoiar nesses mesmos dois pilares: a catarse e a educação. Temos exemplos disso desde o cinema melodramático de D. W. Griffth, que é considerado o pai da linguagem cinematográfica.

Em A Drunkard’s Reformation, de 1909, vemos um pai de família que mais uma vez chega bêbado em casa e é violento com sua esposa e filha, que parecem temê-lo. Mas após ir ao teatro com sua filha e assistir a uma peça que retrata os males do álcool, o personagem se vê representado no palco, e tem sua tomada de consciência em relação ao seu comportamento. Ao retornar para a casa, ele abandona a bebida de vez.

Confira o filme:

O caráter educativo das artes, aqui, é a temática do enredo, e sua metalinguagem acontece em diferentes níveis: a catarse do pai em meio ao público do teatro é a responsável por sua transformação, que por sua vez é a responsável pela nossa catarse, como espectadores do filme.

E essa fórmula catártica foi repetida a exaustão pelo cinema clássico, que encontrou sua própria articulação dos elementos de linguagem que potencializasse essa experiência - como a decupagem clássica, que faz com que o espectador se atenha apenas ao enredo, e não se “distraia” com os elementos de construção da narrativa, como a montagem. Confira aqui nosso artigo sobre como a decupagem clássica almeja uma montagem invisível.

E esse cinema atendia e ainda atende aos interesses de uma determinada parcela da população, que antes do cinema ia ao teatro para se purificar assistindo a peças melodramáticas e que, posteriormente, buscava essa mesma cura nos filmes, se alienando de sua própria realidade em um mundo imaginário.

Para Serguei Eisenstein, “a arte americana tinha inevitavelmente de se tornar uma arte de consolo, uma arte a que faltava realidade, uma arte que afastava as massas da luta de classes, da consciência de seus próprios interesses de classes, e, por outro lado, tinha de ser uma arte que dirigia a energia para a competitividade, a iniciativa, alimentadas com moralidade burguesa e com psicologia burguesa”.

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