Decupagem clássica: por uma montagem invisível

O processo de decupagem consiste na decomposição do filme em planos – entendendo o plano como a extensão fílmica entre dois cortes. Para além dessa perspectiva temporal do plano, encontramos também a percepção de ponto de vista – o posicionamento, distância e ângulo da câmera em relação ao objeto registrado. É a partir daí que podemos estabelecer uma escala de planos – como plano geral, plano médio, plano americano, close-up… Quanto à angulação, a “câmera normal” é posicionada à altura dos olhos de um observador com estatura média. Estabelecido esse ponto de partida, origina-se então a câmera alta e a câmera baixa. Tudo compondo uma “langue” (uma língua) construída pelo e para o cinema.

Quanto à montagem – outro aspecto tão importante na produção de sentidos quanto à posição da câmera -, ela seria a responsável por unir esses diferentes lugares (espacialmente) e pontos de vista (enquadramentos) em um continuum que respeite uma fluidez – passando uma impressão de que toda aquela ação (com seus inúmeros planos) aconteceu tal qual está no filme.

E para que essa fluidez não seja quebrada surgem as já conhecidas “regras de continuidade”. São elas um conjunto de convenções que buscam atenuar a descontinuidade visual entre os planos, resultando em uma sequência fluida de imagens. Dessa forma, na decupagem clássica, a montagem se vale de determinados procedimentos para “extrair o máximo rendimento dos efeitos da montagem e ao mesmo tempo torná-la invisível”.

Para que cada procedimento das regras de continuidade cumpra seu papel ele depende do repertório já sedimentado do espectador. Esse repertório visual é resultado de todos os produtos audiovisuais que assistimos ao longo da vida – desenhos animados, filmes, séries, telenovelas… E é graças a este repertório que uma conversa registrada em plano e contraplano, por exemplo, nos soe natural.

Assim, a partir da combinação desses procedimentos, a decupagem clássica busca eliminar (ou ao menos minimizar) qualquer traço que revele o processo de produção de um filme.

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Mas nem todo cinema busca essa ocultação de seus processos. O cinema moderno buscava uma alternativa a essa tradição do cinema clássico hegemônico sobretudo pela linguagem. Uma das maneiras encontradas pelos cineastas vanguardistas era justamente se libertar da decupagem clássica, irrompendo com esse fluxo de imagens, que seria capaz de manipular o espectador e o alienava de sua própria realidade na criação de um mundo imaginário.

Dessa forma, ao revelar seus procedimentos de montagem, por exemplo, o cineasta chamava a atenção do espectador para a forma, fazendo com que ele reflita sobre os procedimentos utilizados na criação daquela narrativa e tirando seu confortável lugar passivo no assistir a uma obra audiovisual.

Um exemplo já consagrado é Acossado (1960), de Jean-Luc Godard. O filme-manifesto da nouvelle vague popularizou os jump-cuts – corte com transição brusca visual dentro de um mesmo plano. Confira um trecho:

Mas como dito anteriormente, tudo é uma questão de construção de repertório. Hoje, com a vulgarização do jump-cut em canais de youtube e até mesmo em programas de tv é muito provável que o estranhamento causado no espectador seja outro ao causado no público de 1960 que assistiu a Acossado. Aos poucos, a técnica vanguardista é cada vez mais incorporada a sintaxe da linguagem cinematográfica clássica.

Referências

Livros:
O discurso cinematográfico, de Ismail Xavier

Filmes:
Acossado (1960), dirigido por Jean-Luc Godard

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.