Autoria no cinema

A figura do autor é crucial desde as primeiras manifestações artísticas. É claro que o seu reconhecimento na época era outro, e apenas muito mais tarde seria elaborada a noção de Belas Artes – para distinguir pintura, escultura e arquitetura do que hoje chamamos de artesanato.

Nos casos apontados anteriormente, fica muito clara a figura desse artista que trabalha sozinho (ou no máximo tem ajuda de seus aprendizes) e que se caracteriza como o autor de uma obra. Mas como é possível pensar a autoria em uma forma de arte que é construída coletivamente, como o cinema? E como essa figura (seja ela qual for) pode caracterizar um cinema de autor?

O papel do autor no cinema nem sempre foi o do diretor, como é o pensamento vigente. Obedecendo uma tradição literária, o autor de um filme era o roteirista ou o argumentista – e o papel do diretor, para autores como Henri Diamant-Berger, era o de colaborar com o roteirista, respeitando as suas vontades e intenções no filme. Mais tarde exigia-se que o autor no cinema fosse não apenas roteirista-argumentista, mas também realizador – com uma ênfase maior nessa última função. Essa ideia se baseava em uma noção de autoria como expressão pessoal: “autor é aquele que diz eu“.

Na primeira metade da década de 50, os chamados “Jovens Turcos” da revista francesa Cahiers du Cinéma lançariam uma proposta de crítica cinematográfica conhecida como a política dos autores. O que eles queriam era lançar um novo olhar sobre o cinema norte-americano em uma época em que Hollywood era tida como um lugar do cinema de massa, um cinema do divertimento, um comércio que não tinha espaço para a arte e para a autoria.

Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, é talvez a principal faísca para esse novo olhar. Junto com Welles, Alfred Hitchcock, Howard Hawks, Fritz Lang e outros diretores eram elevados ao patamar de autores.

“Uma Certa Tendência do Cinema Francês”, texto célebre de François Truffaut, publicado em janeiro de 1954 na Cahiers du Cinéma, não admitia uma coexistência pacífica entre o que ele chama de “tradição de qualidade” – um cinema francês ultrapassado que preza pela adaptação de clássicos da literatura, pautado sempre nos mesmos métodos de direção e atuação – e o cinema de autor.

André Bazin resumiu a política dos autores como “a escolha, na criação artística, do fator pessoal como um critério de preferência, e a consequente postulação de sua permanência e mesmo de seu progresso de uma obra a outra”.

Havia a distinção do que seriam os metteurs-en-scène e os autores. Enquanto o metteur-en-scène – termo trazido do teatro para denominar o diretor de cena (no palco) – se submetia às convenções do cinema vigente e aos roteiros que lhe eram passados, os autores utilizavam a mise-en-scène – o trabalho de escolhas do diretor ao “pôr em cena” – como autoexpressão.

Podemos analisar a figura do realizador (como autor ou não) a partir de um filme em particular: A Noite Americana (1973), do já citado François Truffaut. No filme, o próprio Truffaut interpreta Ferrand, um cineasta que está produzindo um filme chamado Je vous présente Pamela, e podemos esquecer essa imagem do diretor que tem controle absoluto do que está em cena. Temos imprevistos como a gravidez de uma atriz que pode prejudicar o calendário da produção, uma cena que depende da “atuação” de um gato – que insiste em não desempenhar seu papel no filme… Além disso, fica clara a importância de toda a equipe no set de filmagem para que o filme saia conforme o planejado.

Em determinada cena, em meio a tanta metalinguagem, Truffaut dedica o enquadramento do filme para declarar seu amor aos seus diretores favoritos (cena da capa do post). Ao falar por telefone com o compositor do Je vous présente Pamela, que está em Paris, ouvimos uma nova canção composta para a cena da festa à fantasia do filme que está sendo gravado. Enquanto o diretor escuta a canção pelo telefone (junto ao espectador), ele desempacota livros dedicados a Luis Buñuel, Carl Dreyer, Ernst Lubitsch, Ingmar Bergman, Jean-Luc Godard, Alfred Hitchcock, Roberto Rossellini, Howard Hawks, Robert Bresson

E se você sentiu falta do nome do ídolo maior dos Jovens Turcos, o filme tem uma cena especial dedicada apenas a ele. Ao longo do filme o diretor sonha repetidas vezes com o que parece ser uma lembrança de sua infância. Com a tela em preto e branco, um garoto caminha pela rua e estende seu braço para dentro de um portão. Apenas próximo ao final do filme vemos que na verdade esse é o portão de um cinema de rua e que o garoto está roubando de um painel alguns frames impressos de Cidadão Kane. E o filme faz questão de enquadrar individualmente cada um dos frames impressos com cenas consagradas do longa.

Referências

Livros:
O autor no cinema, de Jean-Claude Bernardet e Francis Vogner dos Reis
Uma certa tendência do cinema francês, de François Truffaut (texto)

Filmes:
A Noite Americana (1973), dirigido por François Truffaut
Cidadão Kane (1941), dirigido por Orson Welles

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.