Os três componentes da arte: tema, forma e conteúdo

Os três componentes básicos de uma obra de arte, e que estão ligados de maneira inseparável, são tema, forma e conteúdo. Hoje, vamos explorar um pouco as maneiras como cada um deles atua para, em conjunto, produzirem uma unidade orgânica em uma obra visual.


Tema (o que)

O tema nas artes visuais pode ser qualquer coisa – um objeto, uma pessoa, até mesmo uma idéia. O que realmente importa é a maneira como esse tema será apresentado: de maneira objetiva ou abstrata?

O tema em obras construídas a partir de imagens objetivas – ou figurativas – é facilmente identificável. Nesse caso, ao representar uma pessoa ou objeto, o artista busca aproximar essa representação de seu correspondente no mundo real. Dessa forma, ao ver a pintura de um autorretrato, a assimilação de que a representação do rosto humano está naquela tela é a partir da busca pelos signos pertencentes à feição humana.

É claro que o artista pode buscar um distanciamento do nosso referencial “real” ao criar uma imagem. Em um processo de abstração total, o tema é capaz de perder completamente sua relação com o objeto físico existente, originando uma imagem não figurativa – ou abstrata. Nesses casos, o tema pode estar baseado apenas em elementos da arte, e não mais em objetos e pessoas reais.

André Bazin, em seu célebre texto Ontologia da imagem fotográfica, aponta o surgimento da fotografia como um marco libertador para a pintura. Até o surgimento do aparato fotográfico, a pintura estava fadada às representações realistas do mundo, mas como a mão de um pintor poderia competir com uma máquina que capta objetificamente o mundo e (com muitas ressalvas) sem interferência humana? Para Bazin, com a chegada da fotografia, a pintura se viu livre para seguir seu caminho próprio, não estando mais presa às imagens 100% figurativas e podendo explorar melhor seu abstracionismo.

Veja esses dois autorretratos de Pablo Picasso. O primeiro pintado quando ele tinha apenas 15 anos. Já o segundo, com 90 anos. Você facilmente conseguirá identificar qual está mais próximo da imagem figurativa e qual é mais abstrato.


Forma (como)

A forma diz respeito a organização ou disposição geral de uma obra de arte. É ela que dá ordem e significado aos elementos da arte, como linha, textura, figura, cor… Esses elementos são ordenados dentro de uma estrutura significativa de acordo com seus princípios de organização: harmonia, variação, equilíbrio, proporção, dominância, movimento…

E como sempre acentuamos, na arte não existe fórmula pronta. O artista combina esses princípios de diferentes maneiras, criando, assim, diferentes efeitos. Permitindo, também, que esses princípios sejam maleáveis, e não dogmáticos.

No caso dos autorretratos de Picasso, com o mesmo tema – sua própria face -, o pintor organizou de maneira variada os mesmos elementos da arte que dispunha – linha, textura, figura, cor. O que mudaram foram os princípios de organização de acordo com o que ele pretendia expressar. Seu autorretrato aos 90 anos foi pintado menos de um ano antes de sua morte e intitula-se “Autorretrato enfrentando a morte” (Self Portrait Facing Death).

Essa mudança pode ser explicada pelo próprio Picasso: “os diferentes estilos que uso em minha arte não devem ser vistos como uma evolução ou como passos para um ideal desconhecido da pintura. Diferentes temas requerem inevitavelmente diferentes métodos de expressão. Isto não implica evolução ou progresso, só que há que seguir a ideia que uma pessoa quer se expressar na maneira que desejar em determinado momento”.


Conteúdo (por que)

O conteúdo, por sua vez, está relacionado a mensagem da obra. E não estamos tratando apenas de uma mensagem objetiva, em que o observador seja capaz de “ler” esse conteúdo em um processo racional. Até porque, essa mensagem pode ser tanto intelectual como emocional.

É aqui que o público “decifra” as ideias do artista, observado apenas o tema e a forma da obra. Em uma situação ideal, a interpretação do observador estaria em sincronia com os propósitos do artista, mas é preciso lembrar que esses propósitos nem sempre são conscientes: “às vezes, o significado das figuras não objetivas torna-se claro na mente do artista somente após evoluir e se modificar na tela” (Otto G. Ocvirk e outros autores).

Mas, caso você não queira “perder nada” nesse processo interpretativo, é possível fazer uma pesquisa sobre a biografia desse artista, entendendo melhor sua época, sua cultura. Isso pode ampliar seus horizontes de interpretação quando estiver em contato com a obra.

Na realidade, qualquer estudo no campo das artes acrescenta em seu repertório interpretativo. Por exemplo, nas últimas semanas publicados dois textos que tratavam do uso simbólico da cor no cinema. Para tratar de cada cor, fizemos uma retrospectiva de como ela foi utilizada por diferentes culturas e em diferentes contextos, até chegar a sua simbologia atual. Confira a parte 1 e a parte 2.


Uma obra que consegue unir esses três componentes (tema, forma e conteúdo) de maneira que eles estejam em sintonia e que interajam, como um organismo vivo, dizemos que a obra possui unidade orgânica. Isso é, ela está constituída de componentes fundamentais para sua existência – não contendo elementos desnecessários ou que poderiam causar distração.

E como aponta Otto G. Ocvirk (e outros autores) em Fundamentos de Arte: Teoria e Prática, apenas ter uma unidade orgânica não garante que essa obra seja uma “grande obra”, mas assegura a ela ao menos uma sensação de totalidade.


Referências

Livros:
Ontologia da imagem fotográfica (texto), de André Bazin
Fundamentos de Arte: Teoria e Prática, de Otto G. Ocvirk, Robert E. Stinson, Philip R. Wigg, Robert O. Bone e David L. Cayton.

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.