O uso simbólico da cor no cinema – Parte 2

Continuando nossa saga pelas cores no Cinema e seus significados históricos e culturais, após apresentarmos o vermelho, amarelo, verde e azul, hoje – ainda embasados em Da cor à cor inexistente, de Israel Pedrosa – vamos para opostos, como o preto e o branco, além do púrpura/violeta e o marrom.

Violeta/Púrpura

Violeta é o resultado da mistura do vermelho com o azul, e quando misturados em proporção de 2/3 de vermelho com 1/3 de azul temos a púrpura – definida por Pedrosa como a mais imponente cor violácea. Assim como a mistura é essencial no processo físico da obtenção dessa cor, ela atua de maneira semelhante em sua simbologia, reunindo as qualidades de suas cores originárias: um equilíbrio entre o amor e a sabedoria, o céu e a terra, os sentidos e o espírito.

Pela dificuldade de obter essa cor na antiguidade, ela esteve associada historicamente com a pedra ametista. Seu nome tem raiz grega que significa “sóbrio”, devido a utilização da pedra em taças com o objetivo de neutralizar os efeitos da bebida.

O violeta apresenta um efeito deprimente, quando utilizada em tons escuros, associando-se à saudade, melancolia, angústia. Por outro lado, quando clara, está mais próxima do rosa e liga-se à uma ideia de alegria. Já o púrpura simboliza , devoção, dignidade, autoridade e poder – e era a cor das vestimentas dos magistrados na Roma antiga.

No cinema a cor é capaz de criar uma atmosfera mística e fantasiosa. É o caso do quarto de Boo, em Monstros S.A. (2001), onde a cor também é capaz de simular uma noite americana. Avatar (2009), de James Cameron, também utiliza o mesmo recurso para criar o mundo alienígena místico de Pandora.

Marrom

Esse “amarelo sombrio” era obtido na pintura pela mistura do amarelo com preto – e até mesmo com vermelho, para obter a terra-de-siena. Colorido pelo óxido férrico ou pelo bióxido de manganês, o marrom simboliza humildade, aflição, penitência e sofrimento.

Como aponta Israel Pedrosa em Da cor à cor inexistente, “a diluição da cor numa atmosfera marrom simplifica e escamoteia a incapacidade do emprego da justeza do tom. Portanto, é prática acadêmica rebaixar as cores ou com terras e marrons, ou com pretos e cinzas-neutros, para fugir à dificuldade da vibração das cores puras“.

A direção de arte de Guta Carvalho e a direção de fotografia de José Roberto Eliezer em O Cheiro do Ralo (2006), de Heitor Dhalia, utilizam esses tons terrosos como uma manifestação visual do protagonista Lourenço – personagem desprezível que fica perturbado com o cheiro do ralo de sua loja. Cheiro este que também está representado nessa cor “suja”.

Branco – Preto

Do ponto de vista físico, o branco é a soma das cores; psicologicamente, é a ausência delas” (Israel Pedrosa).

O branco é resultado da mistura de todos os matizes do espectro solar. Não fazia parte das cores principais na Antiguidade, e Leonardo da Vinci negava ao branco a qualidade de cor, mesmo entendendo que o pintor não poderia se privar de seu uso. Nas primeiras experiências gregas de chiaroscuro (claro e escuro, contraste entre luz e sombra) o branco representava a luz, além de ter sido a cor padrão de fundo utilizada pelos pintores renascentistas.

O uso do branco como pureza pode ser encontrado na tradição cristã, nas vestes brancas da primeira comunhão e na “brancura virginal” do véu da noiva. Além dessa simbologia pura e inocente do branco, contemporaneamente ele foi ressignificado por um “bem maior”, como aponta Pedrosa: “Como reflexo de uma aspiração dominante, o branco encontra seu maior significado no século XX, representando a paz, e principalmente a paz entre os povos”.

Do outro lado do espectro, o preto é o símbolo da frustração, da impossibilidade – além de representar o tradicional luto. É capaz ressaltar a luminosidade e a vibração das cores puras ao contorná-las. Sua força e presença são intensificadas quando estiver em oposição ao branco.

Mas a única interação dessas cores não é apenas de oposição. Sua mistura cria o cinza, que Kandinsky define como a cor neutra por excelência: “Não é sem razão que o branco é o ornamento da alegria e da pureza sem mancha, e o preto o do luto, da aflição profunda, símbolo da morte. O equilíbrio destas duas cores, obtido por uma mistura mecânica, dá o cinza. É natural que uma cor assim produzida não tenha nem som exterior nem movimento“.

Além de possíveis discussões em relação a direção de arte e figurinos dos personagens, o preto e o branco tem papel fundamental na fotografia – uma vez que um surge devido ao excesso de luz e o outro por sua privação. No cinema pré-cor esse caráter ficava ainda mais evidente, mas ainda hoje com o cinema colorido devemos nos lembrar que são essas duas cores que – em interação com todas as outras – criam diferentes atmosferas em nossa cinematografia.

Gostou desse breve apanhado da simbologia das cores e como elas foram utilizadas no cinema? Comente aqui ou em nossas redes sociais – Facebook e Instagram – qual tema relacionado a linguagem cinematográfica você gostaria de ver em nossos próximos posts.


Referências

Livros:
Da cor à cor inexistente, de Israel Pedrosa

Filmes:
Monstros S.A. (2001), dirigido por Pete Docter
Avatar (2009), dirigido por James Cameron
O Cheiro do Ralo (2006), dirigido por Heitor Dhalia

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.