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Os bastidores de Tempos Modernos

Confira algumas curiosidades e motivos que consagraram Tempos Modernos como um dos melhores filmes de Charles Chaplin e um marco cultural.

4 meses atrás

Seja na aula de história, na de sociologia ou por conta própria, é muito provável que você tenha assistido a Tempos Modernos, de Charles Chaplin. O filme foi lançado em 1936 e, ao lado de O Grande Ditador, é um dos grandes clássicos do diretor. No artigo de hoje, vamos apresentar algumas curiosidades e motivos que consagraram Tempos Modernos como um marco cultural.

O roteiro de Tempos Modernos é resultado do descontentamento do diretor frente aos impactos da grande depressão, que aumentou o índice de desemprego, mostrou a muitos norte-americanos o que é a fome e aumentou a repressão policial a qualquer mínimo movimento social. A partir de 1933, Chaplin passou a publicar sua visão de mundo em artigos de jornais, inclusive relatando suas perspectivas sobre o modelo econômico do país.

Questionador, ele construiu suas próprias teorias sobre uma melhor distribuição de riquezas entre as pessoas. Em um encontro com Mahatma Gandhi, defendeu que as máquinas, se bem usadas, poderiam ser proveitosas para o homem. Mas que se utilizadas apenas para a busca do lucro, trariam apenas miséria. E foi nesse contexto que nasceu Tempos Modernos.

Não é segredo a resistência de Chaplin ao cinema falado. Ele foi o último cineasta de hollywood a produzir filmes mudos. Mas em Tempos Modernos, ele sabia que não poderia se esquivar do cinema falado por muito mais tempo, então cedeu a alguns diálogos. Algumas dessas cenas foram gravadas, mas Chaplin optou por cortá-las, e retornou as cartelas do cinema mudo.

Só restaram no filme as vozes reproduzidas por máquinas: as ordens do patrão nos alto-falantes da fábrica, a máquina de alimentação que dá instruções por áudio e o rádio. Mas Chaplin revela pela primeira vez sua voz, próximo ao final do filme, na clássica cena em que Carlitos “canta” no centro do salão do restaurante. O personagem canta em uma língua incompreensível, fazendo com que o público dependa, mais uma vez, de suas mímicas para compreender a história.

Por achar que se expressava melhor com o corpo do que com as palavras, Chaplin sempre se preocupou com a possibilidade de virar apenas mais um comediante se utilizasse sua voz.

Mesmo com a popularização da cadência de 24 frames por segundo, Chaplin seguiu filmando em 18 e 16 quadros. Por ser um filme predominantemente mudo, o cineasta não estava preso a cadência e velocidade do cinema falado (24fps). Ao se libertar do som, Chaplin podia brincar com o ritmo de suas imagens, as deixando mais ou menos aceleradas de acordo com a ação e tom de cada cena.

As filmagens foram de outubro de 1934 a agosto de 1935. Ainda no processo de gravação, Chaplin já iniciou a montagem do filme, o que possibilitou que ela regravasse as cenas que não havia gostado. Por ser seu próprio chefe, ele tinha controle absoluto das filmagens, podendo cancelar diárias se não gostasse de algum ator, do cenário ou se ficasse resfriado - o que realmente aconteceu.

Os cenários mais memoráveis do filme são os da fábrica, que é quase um personagem dentro do filme. E é interessante notar que sequer sabemos qual é a sua finalidade, o que ela produz. Para os designers de produção e roteiristas essa tampouco era uma preocupação. Confira algumas artes conceituais da fábrica:

Você pode assistir ao filme completo no Libreflix, uma plataforma de streaming aberta e colaborativa que reúne produções audiovisuais independentes e de livre exibição.

Confira também o documentário Chaplin Today: Tempos Modernos (disponível apenas em inglês, sem legendas), que apresenta essas e mais algumas curiosidades sobre a produção do filme:


Referências

Filmes: Tempos Modernos (1936), dirigido por Charles Chaplin Chaplin Today: Tempos Modernos (2003), dirigido por Philippe Truffault

Autor(a) do artigo

Rafael Alessandro
Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.

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