Os bastidores de O Grande Ditador

O Grande Ditador estreou no dia 15 de outubro de 1940 em Nova York e foi o primeiro filme falado de Charles Chaplin. O diretor relutou por anos antes de incorporar a fala sincronizada em suas produções. O Cantor de Jazz, por exemplo, é considerado o primeiro longa com falas e canto sincronizados, e estreou 13 anos antes, em 1927.

Antes da produção de seu próximo filme, Chaplin ainda mantinha suas dúvidas: “E mais uma vez eu me fazia a mesma pergunta deprimente: deveria fazer mais um filme mudo? Eu pensara em vozes possíveis para Carlitos, se ele deveria falar em monossílabos ou só resmungar. Tudo inútil. Se eu falasse, me tornaria um comediante qualquer“.

A ideia de Chaplin interpretar dois personagens – Carlitos e Hitler – foi de Alexander Korda, um produtor e cineasta britânico amigo de Chaplin. O personagem do vagabundo é um barbeiro judeu que havia retornado da primeira guerra com amnésia. Já seu sósia seria o ditador de Tomânia, Adnoid Hynkel – uma clara alusão a Hitler.

O roteiro de 300 páginas foi escrito em 1937 e 1938, período em que Hitler ainda era considerado o grande herói da Alemanha, por ter reestabelecido sua economia e “salvado” o país do comunismo.

Para mim, a coisa mais engraçada do mundo é ridicularizar impostores e os convencidos em altas posições. Quanto maior o impostor a enfrentar, melhores as chances de fazer um filme engraçado. E seria difícil encontrar impostor maior do que Hitler (Charles Chaplin)

A imprensa da época estava receosa com o lançamento do filme, que tinha grandes chances de ser proibido em alguns países. Porém, mesmo com a possibilidade do prejuízo causado pelas restrições na distribuição, Chaplin apostou no filme e financiou sua produção sozinho, com 2 milhões de dólares.

O cineasta Costa-Gavras destaca como o roteiro foi visionário em diversos aspectos. O filme abordou os campos de concentração e até mesmo o Zyklon B, pesticida utilizado nas câmaras de gás para o extermínio em massa dos prisioneiros. Foram situações que aconteceram simultaneamente a escrita do roteiro, mas que não eram necessariamente de conhecimento público.

Ainda no período de produção de O Grande Ditador, outros filmes de Chaplin foram banidos pelos regimes autoritários da Alemanha e Itália, e a propaganda nazista fez questão de disseminar que Chaplin era judeu – o que era mentira. No mesmo período, o diretor fez inúmeras doações financeiras a grupos que ajudavam judeus alemães a escapar da Alemanha nazista.

Não sou judeu. Não tenho uma gota de sangue judeu. Nunca protestei, quando disseram que eu era judeu porque eu teria orgulho de ser (Charles Chaplin)

Parte do filme acontece em um gueto judeu, humanizando os personagens que sofrem com o antissemitismo crescente no país. Hannah, interpretada por Paulette Goddard, que forma o par romântico com o barbeiro, é, de todo o filme, a personagem mais combatente contra as violências sofridas no bairro. É ela quem enfrenta os militares, seja fisicamente ou no diálogo. E após o icônico discurso do barbeiro, é de Hanna o plano final do filme. Sua luta pela “terra prometida”, um lugar em que poderia encontrar paz, parece se concretizar em seu sorriso nos segundos finais da projeção.

Confira abaixo o filme na íntegra:


Referências

Filmes:
O Grande Ditador (1940), dirigido por Charles Chaplin
Chaplin Today: O Grande Ditador (2003), produzido por Serge Toubiana

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.