Mulheres na direção de fotografia: como fortalecê-las?

Encerrando a nossa semana dedicada ao Workshop Gratuito de Direção de Fotografia do AvMakers, depois de termos apresentado algumas das grandes diretoras de fotografia do cinema mundial, confira formas de fortalecer as profissionais da fotografia ainda iniciantes e como mudar o atual cenário de desigualdade de gênero no cinema.


Uma cultura machista

Os gráficos acima são do coletivo DAFB – Diretoras de Fotografia do Brasil e apontam para desigualdade de gênero alarmante na direção de fotografia brasileira: entre 1995 e 2015 foram lançados 809 filmes longas-metragens no Brasil. Desse total, apenas 48 foram fotografados por mulheres e 631 não tinham sequer uma mulher em toda a equipe de fotografia.

As falsas justificativas para esse cenário são as mais variadas. A mais recorrente talvez seja a da “força física”. Fazer parte da equipe de fotografia, principalmente quando iniciante, implica em carregar cases de equipamentos, montar luzes pesadas… E, para Laís Bodanzky (diretora de Bicho de Sete Cabeças e Como Nossos Pais), é nesse momento em que se cria uma competição:

Parece que funciona assim: ‘a regra é igual pros dois – tem que carregar os cases até lá para virar fotógrafo, e quem conseguir carregar vira fotógrafo.’ E a gente aceitou isso sem entender que é algo machista, uma opressão em relação à mulher. Então você tem que ter músculo para ser fotógrafa? O que sua condição física tem a ver com sua visão de mundo e com seu olhar artístico de composição, de enquadramento e de iluminação?

Vera Egito (diretora de Amores Urbanos) vê uma mudança nessa perspectiva: “minha geração já subverteu isso totalmente. Para fotografar, você precisa ter um olhar. Se esse for o problema, você contrata um ajudante para carregar o peso“. E, de fato, com as novas tecnologias os equipamentos tornaram-se cada vez mais leves e práticos. Mas como subverter essa cultura machista no cinema?

E o Brasil não é exceção! Apenas em 2018 que o Oscar teve pela primeira uma vez mulher concorrendo na categoria de direção de fotografia. Rachel Morrison foi indicada por seu trabalho em Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississippi ao lado de nomes como Roger Deakins (Blade Runner 2049), Dan Laustsen (A Forma da Água) e Hoyte van Hoytema (Dunkirk). No mesmo ano, foi lançado Pantera Negra – filme de visibilidade mundial que arrecadou 1,346,913,161 de dólares – e que também foi fotografado por Morrison, repetindo sua parceria com o diretor Ryan Coogler iniciada em Fruitvale Station.

Iniciativas que podem mudar esse cenário

Infelizmente, é quase redundante falar sobre uma cultura machista na indústria cinematográfica. E quando tratamos especificamente das funções associadas à direção de fotografia, como vimos anteriormente, a escassez de profissionais do sexo feminino é ainda mais preocupante. Por conta disso, alguns movimentos feministas no cinema criaram iniciativas para reverter este quadro.

Em 2016 foi criado o coletivo DAFB – Diretoras de Fotografia do Brasil, com o objetivo de “organizar as profissionais atuantes e fortalecer a posição da mulher dentro do mercado audiovisual brasileiro”. Ao acessar o site https://www.dafb.com.br/ você encontra o perfil, portfólio e contato de mulheres (cis e trans) e homens trans profissionais do cinema. São operadoras de câmera, cinegrafistas, fotógrafas still, loggers e muito mais, de 32 cidades.

Outra iniciativa, essa de caráter mais acadêmico, é o portal Fotógrafas de Cinema, que surgiu a partir da pesquisa de Nina Tedesco, diretora de fotografia e professora da UFF, intitulada “Mulheres atrás das câmeras: inícios de uma trajetória“. Funcionando como um banco de dados em construção, no site você encontra estatísticas sobre diretoras de fotografia, operadoras de câmera, assistentes de câmera em filmes desde 1981, tornando público e reconhecido o trabalho dessas artistas invisibilizadas.

E os homens podem – e devem – apoiar essa causa! O diretor norte-americano Ryan Murphy, por exemplo, criou a Fundação Half, em parceria com a 20th Century Fox Television, com o objetivo de ter 50% de seus colaboradores mulheres ou integrantes de minorias (como membros da comunidade LGBT ou pessoas de etnias diversas). Além disso, ele reservou 50% da direção de suas séries, como Scream Queens, American Crime Story e American Horror Story para mulheres. A mesma iniciativa pode partir de pequenas e grandes produtoras durante a seleção de sua equipe de filmagem.

Conhece outras iniciativas de apoio às mulheres no cinema? Deixe aqui nos comentários, ou em nossas redes – Facebook e Instagram – que fazemos questão de divulgá-las.


Referências

“Pinto não é fotômetro”: um relato sobre mulheres diretoras de fotografia no Brasil
Esse coletivo busca diretoras de fotografia por todo Brasil
Luz de mulher

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.