A suspensão de descrença e a continuidade

A mágica de um filme está em pequenos detalhes que permitem com que a sua narrativa seja fluída e que o público possa acreditar naquilo que está assistindo.

Todo mundo adora aquela sensação de assistir a um filme e ficar tão atento à história que você esquece onde está e quanto tempo se passou. Mas não são todos os filmes ou vídeos que causam esse tipo de efeito.

Isso porque muitos deles acabam cometendo erros que fazem com que você perceba que se trata de um filme — por mais óbvia que essa afirmação pareça. Objetos de cena que se movem sozinhos, ações de personagens que mudam de um quadro para o outro, pra não citar outros exemplos de descuidos que podem arruinar a experiência de um bom filme.

Construir narrativas audiovisuais exige tanto de quem produz como de quem consome, principalmente ao exigir a mescla de dois conceitos básicos: a suspensão de descrença e a continuidade.

Suspensão de descrença

A suspensão de descrença é a noção que, por mais que se saiba que as cenas de um determinado vídeo ou filme sejam gravadas em uma ordem aleatória, elas fazem certo sentido temporal e lógico. Ainda que o filme contenha personagens fantásticas, cortes e mudanças na sua linha temporal, tudo isso é “ignorado” intencionalmente pelo público.

É como se esse mesmo público, durante a exibição do vídeo, soubesse que está sendo “enganado”, desde que o vídeo respeite conceitos como a verossimilhança e plausibilidade.

A verossimilhança e plausibilidade

O verossímil é tudo aquilo que parece verdadeiro ou que não contraria a verdade. É um conceito que fala sobre o quão próxima certa coisa é capaz de retratar a realidade assim como ela é.

Já a plausibilidade é o conceito que trabalha com fatores que são possíveis de se aceitar. Mais do que trabalhar com itens reais, a plausibilidade faz com que uma determinada história seja lógica dentro do seu próprio universo — no caso, dentro do universo que seu filme se propõe.

A diferença entre os dois conceitos está exatamente na “verdade”, algo que não necessariamente precisa ocorrer, por exemplo, num filme de super-heróis: Clark Kent, do Planeta Diário, não existe na vida real, mas a sua vida enquanto repórter e cidadão de Metrópolis apontam para a uma situação que é plausível e que dentro do filme Homem de Aço (2013), por exemplo, torna crível a vida do último filho de Kripton.

Assim, é possível dizer que dentro do universo audiovisual e daquilo que o público aceita, as cenas de um filme ou vídeo precisam ser mais plausíveis do que verossímeis, já que não precisam retratar a realidade.

Há certa noção de que é necessário tão somente que um filme não faça com que o seu público se lembre de que aquela é uma produção e quando erros de continuidade acontecem, eles fazem com que isso seja trazido à tona por conta da descrença que uma cena pode trazer.

Por exemplo, em Uma Linda Mulher (1990), a atriz Julia Roberts aparece primeiro comendo um croissant e depois ele se transforma em uma panquecaca. Esse tipo de erro acaba fazendo com que o espectador seja levado a pensar naquele detalhe e tomá-lo como erro na continuidade, fator que o lembra o processo de gravação e que esse detalhe não foi observado pela equipe.

Continuidade

A continuidade fala do trabalho por parte da equipe e direção em montar as cenas e as partes da história contendo uma lógica que dê a entender um tempo adequado entre tudo o que está sendo exibido na tela.

Isto é: por mais que grande parte do público saiba que pode haver uma diferença de tempo muito grande entre a gravação de uma cena e outra, cabe à quem produz o filme fazer com que essa percepção seja diminuída ao mínimo perceptível.

A continuidade é a coesão que torna a história compreensível, lógica e plausível, de maneira que a suspensão de descrença do público não seja atrapalhada por um objeto de cena que se move de lugar de uma cena para outra.

A importância da continuidade na construção do tempo fílmico

A continuidade que leva em consideração a suspensão de crença do público é aquela em que o filme liga os diferentes quadros de maneira que a compreensão do tempo e das ações seja plausível para o público.

E o fator que faz com que tudo isso tenha um sentido é o tempo: se a montagem de um filme não respeita uma lógica temporal plausível, dificilmente ele conseguirá contar a sua narrativa sem que o seu público duvide daquilo que está na tela.

O tempo tem uma grande influência sobre aquilo que a gente percebe como real ou crível.

E isso é aplicável em quaisquer tipos de filmes ou histórias, ainda que elas tentem se desprender ou confundir a lógica temporal normal, como acontece em A Origem (2010), em que o tempo é distorcido de várias maneiras e força o público a entender a ordem que cada coisa acontece.

E é na edição que essa construção de tempo e realidade deve ser feita.

Edição invisível ou edição em continuidade

Dessa forma, ao construir uma narrativa dentro de um filme você deve considerar que a mudança de quadros deve dar menos indícios de que ocorreu alguma manipulação na cena ou na imagem que ela retrata — a não ser que a ideia seja transparecer isso.

A edição invisível é aquela que faz com que a mudança de quadros pareça a mais fluída possível. Ou seja, aquela que pareça que a história em si nem foi cortada — quando todos sabemos que essa é uma tarefa praticamente impossível.

Assim, editar levando em consideração todos esses conceitos juntos é a melhor forma de garantir que a experiência do público em relação àquilo que ele está assistindo seja a melhor possível.

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Escritor e redator, formado em Rádio e Televisão pelo Complexo FIAM-FAAM, apaixonado por literatura e observador míope do espaço sideral.