18 anos de Cidade de Deus

Melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor fotografia. Foram essas as categorias em que o Cidade de Deus (2002) concorreu no Oscar de 2004. Um dos filmes brasileiros mais importantes de todos os tempos, principalmente por essa repercussão no exterior, completa 18 anos essa semana.

Apesar de não ter levado nenhuma das estatuetas, perdendo em três categorias para O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003), Daniel Rezende venceu o BAFTA no ano anterior por seu trabalho na montagem do filme. E sua função se destaca no filme desde a cena de abertura.

Pega a galinha!

Enquanto ainda somos apresentados aos créditos iniciais da equipe de produção, acompanhamos uma cena de perseguição incomum nas ruas da Cidade de Deus. A protagonista? Uma galinha. O ritmo frenético da montagem está alinhado ao samba diegético da cena, e o efeito kuleshov, criado na alternância dos planos em close da galinha com os planos de outras galinhas sendo depenadas, cortadas e cozidas, é capaz de nos convencer até mesmo de que nossa protagonista é uma excelente atriz.

Para criar essa perseguição quase em primeira pessoa (ou em primeira galinha), o fotógrafo César Charlone acoplou a câmera a um cabo de vassoura – o que deu maior maleabilidade ao seu manuseio, além de permitir que a câmera ficasse quase rente ao chão, e assim mais próxima ao animal.

Confira a cena abaixo:


10 anos depois

Apesar de ter recebido um grande reconhecimento no Brasil e no mundo, alguns dos atores do filme pouco se beneficiaram desse sucesso. Em Cidade de Deus – 10 anos depois, um documentário que entrevista parte do elenco uma década após o lançamento do filme, acompanhamos as transformações que o filme provocou na vida daqueles jovens atores.

Nas entrevistas, os atores relembram suas expectativas da época com o filme, de que aquela poderia ser uma experiência que mudaria suas vidas. Eles recordam, inclusive, quanto ganharam para atuar na produção. Dependendo da importância do personagem na trama, o cachê variava de R$1500 a R$10 mil.

Em 2015, Alexandre Rodrigues, o Buscapé, mobilizou uma discussão nas redes acerca do racismo nas artes cênicas após revelar que virou motorista de aplicativo por um período para complementar sua renda após não conseguir mais nenhum papel como ator.

Eles só se lembram de mim para trabalhos que requeiram meu tipo físico específico — ou seja, papéis de negro. Obviamente, não há como eu fazer outro tipo, nem acho que a falta de papéis seja por causa da minha cor de pele. Não posso, contudo, ser hipócrita: sei que consegui trabalhos na Globo por ser negro. Como nas novelas Sinhá Moça e Cabocla, nas quais interpretei escravos. (Alexandre Rodrigues)

Na época em que assinou seu contrato com a produção, o ator pôde escolher entre receber o cachê de 10 mil reais ou entrar com uma participação nos lucros da bilheteria do filme. No documentário, o ator lamenta ter optado pelo cachê, uma vez que o filme arrecadou mais de 30 milhões de dólares.

Leandro Firmino, o Zé Pequeno, também teve poucas oportunidades como ator após o filme. No Pânico na Tv o ator reencarnava o mesmo personagem, repetindo os padrões de violência do Zé Pequeno em situações cotidianas, reforçando um estereótipo do homem negro violento. No mesmo programa, o ator protagonizou também uma “pegadinha” em que se caracterizava como um assaltante.

Eu acho que tem que ter mais o negro contando a história do negro. (Leandro Firmino)

Para Alice Braga, sobrinha de Sônia Braga, as oportunidades parecem ter sido diferentes. Mesmo sendo uma personagem secundária, sua participação no filme aumentou sua visibilidade como atriz. Em 2007, ela contracenou com Will Smith em Eu Sou a Lenda (2007), filme que abriu portas para sua carreira internacional.

Cidade de Deus – 10 anos depois está disponível na Netflix, e abaixo você pode conferir o trailer:


Referências

Filmes:
Cidade de Deus (2002), dirigido por Fernando Meirelles
Cidade de Deus – 10 anos depois (2013), dirigido por Cavi Borges, Luciano Vidigal

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.