Quais são os tipos de documentário?

A gente já falou um pouco de como o documentário é uma peça importante dentro do audiovisual aqui no Blog, mas você sabe quais são os tipos de documentários que existem?

Quando a gente fala em documentário, uma das leituras que embasa esse tipo de produção é o livro Introdução ao Documentário, de Bill Nichols. Nichols é cineasta e crítico de cinema com especialização no estudo e teoria de documentários.

Segundo o autor, existem 6 tipos ou modos de documentários que a gente vai apresentar no post de hoje.

Modo Poético

Segundo Nichols, o modo poético

enfatiza associações visuais, qualidades tonais ou rítmicas, passagens descritivas e organização formal.

O documentário que se apoia na lógica mais poética de construção tem uma estética e uma narrativa mais trabalhada, tendo os seus elementos mais “pensados” para a montagem da mensagem que o cineasta quer passar.

Em Koyaanisqatsi: Life Out of Balance (1982), imagens em time-lapse são dispostas no decorrer do filme com uma trilha sonora marcante como forma de demonstrar a ideia principal do filme: uma vida que passa de forma muito rápida, cuja linguagem falada — ausente no filme — já não consegue expressar com precisão.

Numa comparação, o modo poético seria uma forma de cinema experimental, tendo trilha sonora dedicada, imagens tratadas para a composição da história, ritmos variados dentro da narrativa e enquadramentos que não são tão comuns dentro desse tipo de produção.

The Song of Ceylon (1934) é uma produção britânica que mostra o avanço da era industrial sobre a comunidade de Ceylon, no Sri Lanka, e como esse avanço alterou o estilo, costumes e cultura locais.

Nesse tipo de produção, por exemplo, a locução não é somente uma apresentação de dados a respeito do que o público está vendo, mas ela é pensada para ser um complemento à imagem e é trabalhada junto com o filme.

Modo Expositivo

Já o modo expositivo, também segundo Nichols,

enfatiza o comentário verbal e uma linguagem argumentativa.
Esse tipo de documentário é um dos mais comumente encontrados no mercado audiovisual. Trata-se de qualquer documentário que retrate algum acontecimento, enfatizando fatos e argumentos para aquilo que o filme está narrando.

A pesquisa é uma marca muito forte desse tipo de documentário, já que a argumentação é o ponto forte do filme — uma pesquisa que, aliás, abrange todos os lados que a história apresenta.

Lembrando que: para o documentarista, é importante que se tenha um “lado”, uma opinião, porque o documentário é justamente a apresentação dessa opinião. É um dos itens compositores da ideia que seu documentário apresenta.

O documentário Triunfo da Verdade (1935), apesar de atuar como propaganda do regime e ideal nazista, é o exemplo mais palpável de documentário que procura expor as suas ideias e que toma o lado do cineasta, no caso, Leni Riefenstahl.

Simpatizante do nazismo, a cineasta compôs a história de maneira que o seu documentário argumentasse e atuasse como propaganda do regime instalado em 1933 na Alemanha, tendo Adolf Hitler como seu Füher. As técnicas que ela usou como propaganda são, inclusive, usadas até hoje, ainda que esse seja um tema polêmico e delicado de ser tratado.

Modo Observativo

Para Nichols, o modo observativo

enfatiza o engajamento direto no cotidiano das coisas ou pessoas que representam o tema do cineasta, conforme são observadas por uma câmera discreta.

Nesse sentido, todo documentário sobre vida animal é um documentário feito a partir do modo observativo, uma vez que o tema está ali, em frente a uma câmera, que somente observa o assunto a ser gravado sem que essa câmera cause qualquer interação nesse meio.

A Marcha dos Pinguins (2005), ainda que apresente uma história muito bem desenvolvida e uma locução muito bem trabalhada, é um exemplo de documentário em que a câmera cumpre esse papel observativo sem interação com o meio.

As imagens falam muito e são organizadas da melhor maneira possível para contar a história.

Modo Participativo

O modo participativo, por sua vez, ainda para Nichols,

Enfatiza a interação do cineasta e o tema. A filmagem acontece em entrevistas ou outra forma de envolvimento mais direto. Frequentemente, une-se as imagens de arquivo para examinar questões históricas.

Nesse tipo de documentário o cineasta assume uma postura mais presente na construção da narrativa do documentário, seja realizando as entrevistas e conversando com o seu “tema” ou mesmo sendo filmado e fazendo a locução do filme.

Um exemplo desse tipo de documentário é o seriado Cosmos (1980), criado por Ann Druyan e Carl Sagan, sendo que Sagan é o astrofísico que apresenta o tema — o espaço e seu fascínio — enquanto interage com ele nas gravações. Sagan é, ao mesmo tempo, locutor e parte do que é gravado.

Outro exemplo é o recente lançamento da Netflix, Democracia em Vertigem (2019), em que a cineasta Petra Costa participa da condução da história do documentário, mesclando trechos de sua vida pessoal com a vida política brasileira, mostrando como ambas foram afetadas nos últimos 13 anos.

Modo Reflexivo

O modo reflexivo, para Nichols, é aquele que

chama atenção para as hipóteses e convenções que regem o cinema documentário. Aguça a nossa consciência da construção da representação da realidade feita pelo filme.

Por mais que a definição pareça complicada, o modo reflexivo é o tipo de documentário que apresenta mais um conceito a ser pensado do que um fato ou um argumento — ainda que ele também possa apresentar essa estrutura.

Documentários sobre vida alienígena são documentários reflexivos por excelência: eles apresentam a ideia de como seria a abordagem humana ou o impacto sobre a vida humana caso toda a argumentação e provas apresentadas no documentário fossem tomadas por verdadeiras e factíveis.

Eram os deuses astronautas? (1969) é um dos melhores exemplos desse tipo de documentário, ao apresentar seus fatos e argumentos para levantar o questionamento sobre a relação da mitologia antiga de povos à presença de astronautas em um tempo passado do planeta Terra.

Modo Performático

Para Nichols, o modo Performático

enfatiza o aspecto subjetivo ou expressivo do engajamento do próprio cineasta com seu tema, e a receptividade do público a esse engajamento. Rejeita a ideia de objetividade em favor de evocações e afetos. Todos os filmes desse modo compartilham características com filmes experimentais, pessoais e de vanguarda, parecido com o Poético, mas com uma ênfase vigorosa no impacto emocional e social para o público.

Documentários que se utilizam do modo Performático, ainda que tenham muitos itens em comum com o modo Poético, tem muito mais proximidade de um filme de ficção.

O documentário Performático se utiliza muito menos de embasamento do que, de fato, de argumentos para o convencimento. Pode-se dizer que ele é, sim, a visão do cineasta colocada sobre o molde de documentário.

É um dos tipos menos comuns de documentário, uma vez que ele se aproxima muito da ficção. E é importante lembrar que o consenso do que difere essas duas pontas entre o documentário e a ficção é o uso de atores ou pessoas reais que vivem o tema.

Ilha das Flores (1989) é um exemplo de documentário performático por apresentar esses elementos de “quase” ficção na construção da sua narrativa, ainda que tenha muito dos outros modos somados na montagem do curta.

O documentário é um exemplo de formato que explora muito a exposição de uma parte ou da realidade como um todo, e essa é uma mensagem poderosíssima na construção de um filme com capacidade de comunicação tão única como o documentário. E para atingir esse meio, vale lembrar que você pode sempre misturar mais de um modo para construir o seu documentário, adaptando sempre àquilo que você quer evidenciar.

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Escritor e redator, formado em Rádio e Televisão pelo Complexo FIAM-FAAM, apaixonado por literatura e observador míope do espaço sideral.