Os 5 melhores filmes brasileiros, segundo a crítica

Em setembro de 2016, a ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema publicou um livro que elenca os 100 melhores filmes brasileiros. Elaborada por críticos e jornalistas membros da associação de todo o país, 379 filmes foram citados durante o ranqueamento.

Confira abaixo quais são os cinco primeiros filmes da lista, os motivos que fazem esses filmes tão relevantes para a história de nosso cinema e excertos de algumas críticas presentes no livro.


5. Terra em Transe (1967)


Direção: Glauber Rocha

Vencedor do prêmio da federação da crítica internacional (FIPRESCI) no Festival de Cannes de 1967, Terra em Transe foi visto como um manifesto prático da Estética da Fome do diretor – abordada por nós no texto Glauber Rocha e a sua Estética da Fome. Produzido em reação ao golpe de 64, o filme chegou a ser proibido em território nacional por conta de sua subversão e irreverência com a igreja, mas isso não o impediu de impactar a sociedade da época, inspirando até mesmo o Tropicalismo.

Glauber teve, com este filme, a visão gênia – e trágica – das estruturas mais fundas da sociedade brasileira. Aquelas que nos definem, para o bem e para o mal. Visionário, rigoroso, inventivo, Terra em Transe causou forte impacto na discussão política de sua época e na cultura nacional, tendo servido como deflagrador do tropicalismo. É um divisor de águas, uma cisão, uma cicatriz aberta na cultura brasileira. Depois dele, nada foi igual. Para citar uma frase de Cacá Diegues: Terra em Transe continua em cartaz até hoje.” (Luiz Fernando Zanin Oricchio)

O filme está disponível em plataformas como Globosatplay e Vivoplay.


4. Cabra Marcado Para Morrer (1984)


Direção: Eduardo Coutinho

O único documentário do top 5 – e consequentemente eleito pela ABRACCINE como o melhor documentário brasileiro -, Cabra Marcado Para Morrer teve sua produção interrompida em 1964, devido ao golpe militar. 17 anos depois, as filmagens foram retomadas de maneira reinventada. O longa-metragem que inicialmente trataria apenas da vida e morte de João Pedro Teixeira, fundador da Liga Camponesa de Sapé, quando foi retomado incorporou toda sua jornada de produção e as mudanças políticas no Brasil.

Cabra Marcado Para Morrer se constrói através de um constante diálogo entre os seus dois tempos: 1962/64 e 1981/82. No Cabra-60, o cinema pretendia engolir a realidade. (…) Já no Cabra-80, é a realidade que se apresenta para engolir o cinema. (…) Se o Cabra-60 era fruto da vontade de um grupo (o CPC) de expressar a vivência popular, o Cabra-80 é o desejo de um homem (Coutinho) de abrir-se à vivência popular propriamente dita“. (Carlos Alberto Mattos)

Você pode assistir ao filme no Tamanduá.tv.


3. Vidas Secas (1963)


Direção: Nelson Pereira dos Santos

Baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos, a adaptação de Nelson Pereira dos Santos para as telas foi indicada à Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1964 e foi o único filme brasileiro indicado pelo British Film Institute como uma das 360 obras fundamentais em uma cinemateca.

Na ficção do filme, a dureza do presente é uma condição a ser superada pelos personagens. Há esperança, sempre houve esperança nos livros de Graciliano e nos filmes de Nelson Pereira, o que não significa que os problemas se solucionavam da noite para o dia. No serão de Vidas Secas, noites e dias se fundem num mesmo cenário de morte; nele o homem se integra à natureza, seu sofrimento é compartilhado com a terra. A morte de um animal é semelhante à morte de um parente pela qual se chora, mas sem se alongar nas lágrimas. É famosa a triste beleza da cena que mostra a morte de Baleia e que prova que a seca não permite que se perca tempo com qualquer coisa que não seja a busca por trabalho, por terras verdes, por mais vida” (André Miranda)


2. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)


Direção: Glauber Rocha

Único diretor que garantiu duas vagas no top 5, três anos antes de Terra em Transe, Glauber Rocha havia lançado Deus e o Diabo na Terra do Sol – que assim como Vidas Secas disputou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1964. Um dos filmes favoritos de Bong Joon-ho e Martin Scorsese, o longa é um marco do Cinema Novo e, assim como Terra em Transe, apresenta os princípios da estética da fome.

A câmera de Glauber realiza com Deus e o Diabo a estética política do cinema nacional. Nesse filme, sua arte expõe de forma revolucionária certa visão do nacionalidade para o Brasil e para o mundo. Em sua perspectiva, uma das finalidades do cinema é a de se pautar por uma estética que revele de forma original uma cultura em estado bruto. Com isso, ele acreditava contribuir para transformar a sociedade e a política no país. Em decorrência, com seu processo criativo ele encontrou no filme a possibilidade de intervenção histórica“. (Humberto Pereira da Silva)

O filme está disponível no Globosatplay.


1. Limite (1931)


Direção: Mario Peixoto

O primeiríssimo lugar é de Limite (1931), de Mario Peixoto. Realizado quando o diretor tinha apenas 22 anos, esse filme poético não fica atrás dos clássicos das vanguardas europeias, como o surrealismo. O filme, que se afasta dos ideais do cinema narrativo clássico, por muitos anos foi considerada uma “obra secreta“, por conta do difícil acesso após a exibição no Cine Capitólio, na Cinelândia do Rio de Janeiro. O filme que nunca havia sido exibido comercialmente circulou em cópias clandestinas em vhs por muito tempo, e só recentemente foi restaurado pela Cinemateca Brasileira e pelo laboratório italiano L’Immagine Ritrovata da Fondazione Cineteca di Bologna, graças a uma iniciativa da World Cinema Foundation, instituição criada por Martin Scorsese.

Limite é um grande filme. Para o espectador de hoje é uma obra difícil, árdua, embora ele possa ser seduzido pela plasticidade do lento movimento que propõe. Há na película uma predominância da encenação sobre a intriga, sobre a história. E o que importa é o modo de pôr em imagem a ideia do diretor. O cinema de Mario Peixoto é um cinema poético. Tem necessariamente a audácia da imagem. E da imagem como metáfora“. (Enéas de Souza)

O filme está disponível gratuitamente no Libreflix.


O top 10 é constituído também por:

  1. O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla;
  2. São Paulo S/A (1965), de Luís Sérgio Person;
  3. Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles;
  4. O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte;
  5. Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andrade.

No site da ABRACCINE você confere a lista completa.

Você já assistiu a algum desses filmes? Tem um preferido? Conta pra gente aqui nos comentários e acompanhe nossas redes – Facebook e Instagram – para não perder nenhum texto sobre cinema.


Referências

Livros:
100 melhores filmes brasileiros, de Paulo Henrique Silva (org)

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.