Glauber Rocha e a sua estética da fome

“Sempre que posso, confiro o que estão fazendo os novos diretores chilenos, peruanos, argentinos, brasileiros. Porém, de todos eles, “Deus e o diabo na terra do sol” (1964), do Glauber Rocha, foi o filme que jamais saiu de minha cabeça. É impressionante, ainda hoje fico de boca aberta ao rever aquela maravilha.”

A frase acima é de Bong Joon-ho, diretor coreano vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2019 e que se destacou no Oscar de 2020 ao ganhar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Original e Melhor Filme Internacional.

A citação do cineasta – talvez o que esteja em maior evidência desde o Festival de Cannes – viralizou em publicações em redes sociais que questionavam o acesso e alcance de produções clássicas do cinema brasileiro. O apelo era de que, no mesmo ano em que pela primeira vez um filme estrangeiro venceu a categoria do Oscar de melhor filme, mais produções de língua não-inglesa fossem valorizadas, principalmente as de nosso próprio país.

O filme citado por Bong Joon-ho como o que jamais saiu de sua cabeça tão pouco perdeu relevância nas discussões sobre cinema brasileiro. Deus e o diabo na terra do sol, 56 anos após o seu lançamento, é ainda considerado pela ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) como o segundo melhor filme da história do Brasil, atrás apenas de “Limite” (1931), de Mário Peixoto.

Glauber Rocha é tido como o principal expoente do Cinema Novo, um movimento de vanguarda no cinema influenciado pelas novas ondas (nouvelle vague) do cinema francês e pelo neorrealismo italiano. Esta nova forma de cinema popularizou a frase “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça“, que ia na direção oposta dos filmes de grande circulação até então, em sua maioria chanchadas e filmes produzidos pela Vera Cruz, ainda muito influenciados por uma pompa européia.

No mesmo ano de lançamento de Deus e o diabo na terra do sol, Glauber foi à Cannes com sua indicação à Palma de Ouro, e no ano seguinte, publicou o mais importante manifesto da história do cinema brasileiro: Uma Estética da Fome. O texto apresentava um projeto artístico revolucionário que almejava utilizar o cinema como ferramenta de mudança social, e não apenas de denúncia.

Ao tensionar as relações entre o interlocutor artista latino-americano e o consumidor estrangeiro, Glauber aponta que a arte (lê-se o cinema) produzida até então não comunicava a verdadeira miséria vivida por seu povo a esse espectador, e nem este estrangeiro era capaz de compreendê-la verdadeiramente. A única comunicação efetiva era de “mentiras elaboradas da verdade”, como exotismos formais que vulgarizam problemas sociais, e que apenas satisfaziam a nostalgia do primitivismo do observador europeu.

Dessa forma, a América Latina permanecia colônia em sua produção artística. Os artistas eram castrados em exercícios formais e não atingiam plena possessão de suas formas, não despertando nunca do que Glauber chama de “ideal estético adolescente“. Além disso, a indignação social provocava discursos flamejantes, sendo o primeiro sintoma o anarquismo, o segundo, uma redução política da arte que faz má política e o terceiro, uma busca por uma sistematização para a arte popular.

E é na fome que reside a originalidade do Cinema Novo, perante ao outro cinema hegemônico mundial: “A nossa originalidade é nossa fome e nossa maior miséria é que esta fome, sendo sentida, não é compreendida“.

Glauber aponta ainda para uma estética da violência, que diferente das produções anteriores que satisfaziam a nostalgia do primitivismo do espectador europeu, o colonizador poderia compreender, pelo horror, a força da cultura que ele explora. “Enquanto não ergue as armas o colonizado é um escravo“.

Em 1966, Glauber lançaria ainda “Terra em Transe”, visto como um manifesto prático dessa estética da fome, que marcou o cinema brasileiro e que continua a influenciar até mesmo produções contemporâneas, como “Bacurau” (2019).

Onde houver um cineasta disposto a filmar a verdade, e a enfrentar os padrões hipócritas e policialescos da censura intelectual, aí haverá um germe vivo do Cinema Novo. Onde houver um cineasta disposto a enfrentar o comercialismo, a exploração, a pornografia, o tecnicismo, aí haverá um germe do Cinema Novo. Onde houver um cineasta, de qualquer idade ou de qualquer procedência, pronto a pôr seu cinema e sua profissão a serviço das causas importantes de seu tempo, aí haverá um germe do Cinema Novo” (Glauber Rocha).

Referências

Livros:
100 melhores filmes brasileiros, organizado por Paulo Henrique Silva
Glauber Rocha, de Sylvie Pierre

Filmes:
Deus e o diabo na terra do sol (1964), dirigido por Glauber Rocha
Limite (1931), dirigido por Mário Peixoto
Terra em Transe (1966), dirigido por Glauber Rocha
Bacurau (2019), dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.