A forma do cinema documentário

Já abordamos a (possivelmente) maior questão que cerca o documentarismo: a ética na representação do outro. Mas, além dessa preocupação de como utilizar “atores sociais” em seu filme, os documentaristas também precisam escolher a forma em que sua obra se organizará narrativamente. Em A arte do cinema: uma introdução, David Bordwell e Kristin Thompson apontam para duas possíveis formas do cinema documentário: a categórica e a retórica.


Forma categórica

A primeira classificação parte do conceito de “categorias” – formas de agrupamentos criados para organizar nosso conhecimento sobre o mundo. Um exemplo biológico básico é nossa segmentação de plantas e animais em diferentes gêneros e espécies. Mas, para além desses tecnicismos, usamos classificações até mesmo banais em nosso cotidiano para esses mesmos exemplos, como “animais domésticos”, “animais selvagens”…

Essa segmentação em categorias pode ser a base para uma organização formal de um filme. É o que acontece em Olympia (1938) de Leni Rienfenstahl. Para organizar o registro das Olimpíadas de Berlim em dois longas, a diretora optou por segmentar os jogos em subcategorias inseridas no mesmo evento.

Mas cuidado! Essa segmentação apresenta riscos. Um deles, apontados por Bordwell e Thompson aos documentaristas, é a tendência de um desenvolvimento simples que pode entediar o espectador. Assim, o cineasta deve buscar fugir de repetições narrativas ao alternar categorias, introduzindo variações no enredo que sejam capazes de ajustar as expectativas do espectador.

É o que Leni Rienfenstahl faz ao organizar seu filme em um padrão A-B-A. Para atingir seu objetivo de “enfatizar a cooperação internacional inerente nas Olimpíadas“, ela parte de uma etapa do longa dedicada somente aos jogos, sem se concentrar nos traços de competitividade entre os participantes. Em seguida, certa dramaticidade é adicionada ao filme, quando acompanhamos individualmente, em pequena narrativas, alguns atletas que podem ou não falhar em suas competições. E, por fim, a diluição da competitividade retorna, dando lugar ao que os autores nomeiam de uma “beleza absoluta do evento”.

Assim, Rienfenstahl, ao combinar em seu filme categórico diferentes tipos de forma e alterná-las, explora esteticamente esses atletas e a beleza de suas apresentações sem deixar de lado o potencial dramático de um evento pautado na competição.

Vale lembrar que este é um filme propaganda, assim como O Triunfo da Vontade – também dirigido por Leni Rienfenstahl, que exaltava o partido nazista. Por isso, seu caráter vanguardista no uso de técnicas da linguagem cinematográfica para o registro dos Jogos Olímpicos deve ser estudado sem deixar de lado o contexto político de sua produção e os ideais que ele se propõe a propagar.


Forma retórica

Dado o aviso acerca de Olympia, alguns filmes parecem explicitar ainda mais seu poder (ou intenção) de persuasão. Em documentários que utilizam a forma retórica, existe um esforço para que o espectador adote determinada opinião a partir do filme. Bordwell e Thompson organizam a forma retórica a partir de três tipos de argumentos: o que se relaciona à fonte, o que se relaciona ao assunto ou que se relaciona ao espectador. Vamos a cada um deles.

Os argumentos da fonte partem de depoimentos de pessoas que são consideradas fontes confiáveis para abordarem determinado assunto. Especialistas, pesquisadores e estudiosos são registrados de maneira que suas falas transmitam confiança, reafirmando suas posições de “pessoas bem informadas”.

Os argumentos centrados no tema são mais abstratos, mas ainda possíveis de compreender. O filme pode partir de uma ideia que seja senso comum e utilizá-la como base para sua argumentação – que negará ou reafirmará determinado pensamento. Os autores citam uma crença contemporânea de que todos os políticos são corruptos. A partir desse pressuposto, um candidato pode se valer desse discurso já sedimentado para enaltecer suas características de honestidade e transparência e, assim, se destacar. Seu argumento, parte, então, diretamente de um tema em determinada cultural.

Por fim, os argumentos centrados no espectador intensificam o apelo emocional no público. Seguindo o exemplo anterior do político, ele pode posar com a bandeira do país e apelar para o patriotismo da população, ou até mesmo posar com sua família e animais de estimação para provocar um sentimentalismo em seus espectador. Qualquer convenção bem-sucedida e incorporada ao filme para provocar a reação desejada.

Esses argumentos, aqui exemplificados em uma pessoa, podem estruturar a forma retórica de um documentário, e sua organização pode mobilizar diferentes expectativas no público. Ao apresentar um problema em um filme, em seguida descrevê-lo detalhadamente e apenas depois revelar o ponto de vista do documentário acerca daquele tema, cria-se uma atmosfera de curiosidade, permitindo que o espectador preveja possíveis caminhos e soluções que serão defendidas.

Acima de tudo, é importante saber reconhecer como opera a estrutura formal narrativa e argumentativa de um documentário, não apenas para saber como fazê-los, mas para também desvelar os interesses que fundam toda sua produção.


Referências

Livros:
A arte do cinema: uma introdução, de David Bordwell e Kristin Thompson

Filmes:
Olympia – Partes 1 e 2 (1938), dirigido por Leni Rienfenstahl

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.