Questões éticas no documentário

Em Introdução ao documentário, Bill Nichols dedica um capítulo inteiro do livro para discutir os motivos pelos quais as questões éticas são fundamentais para o cinema documentário. E nosso artigo de hoje apresenta algumas das principais ideias desse autor.

O primeiro passo de Nichols é estabelecer semelhanças e diferenças entre o cinema ficcional e o não ficcional. Ele parte do pressuposto de que todo filme é um documentário – sim, até mesmo os ficcionais. A justificativa é que até mesmo esses filmes evidenciam uma cultura e reproduz a aparência das pessoas que ela integram.

Para criar, então, uma cisão entre esses dois cinemas ele chama de “documentários de satisfação de desejos” o cinema ficcional e de “documentários de representação social” os filmes de não ficção (que aqui serão tratados apenas como documentários). Ambos possuem a capacidade de construir verdades, mas os documentários parecem com frequência querer “instilar crença” – que Nichols explica como “aceitar o mundo do filme como real”. Assim, o documentário e o mundo histórico possuem uma conexão profunda, onde esses filmes são capazes até mesmo de acrescentarem uma nova dimensão à memória popular e à história social.

Em seguida, Nichols destaca três grandes características que fazem com que o cinema documentário se engaje no mundo pela representação. A primeira delas se dá pela capacidade que o aparato cinematográfico possui em registrar situações e acontecimentos com fidelidade. No cinema documentário vemos o que poderíamos ver por nós mesmos fora do cinema – pessoas, lugares… E assim cria-se uma “base para a crença” – se o que vemos realmente estava diante da câmera e foi captado por esse aparato fidedigno, deve então realmente ter acontecido.

O segundo ponto, para o autor, é que os documentários – assim como os filmes ficcionais – significam ou representam os interesses de outros. “Os documentaristas muitas vezes assumem o papel de representantes do público. Eles falam em favor dos interesses de outros, tanto dos sujeitos tema de seus filmes quanto da instituição ou agência que patrocina sua atividade cinematográfica”, afirma Nichols.

Por último o autor se atém as questões de como o documentário representa o mundo: “os documentários podem representar o mundo da mesma forma que um advogado representa os interesses de um cliente: colocam diante de nós a defesa de um determinado ponto de vista ou uma determinada interpretação de provas”. Dessa forma, mais do que representar pessoas e situações, o documentário é capaz de atuar ativamente – e intencionalmente – na formação de opinião sobre determinado assunto.

E é a partir desse conceito de representação no documentário que surgem as questões éticas. O autor se pergunta: “o que fazemos com as pessoas quando filmamos um documentário?“. No cinema ficcional é fácil, nós dizemos o que eles devem fazer e falar – afinal, são atores. Já nos documentários essas pessoas são “atores sociais” – seu valor para o cinema está em sua própria vida: “seu valor reside não nas formas pelas quais disfarçam ou transformam comportamento e personalidade habituais, mas nas formas pelas quais comportamento e personalidade habituais servem às necessidades do cineasta”.

Isso nos leva a outra questão posta por Nichols: “que responsabilidade têm os cineastas pelos efeitos de seus atos na vida daqueles que são filmados?“. O autor discorre sobre esse desafio:

  • “Os cineastas que têm a intenção de representar as pessoas que não conhecem, mas que tipificam ou detêm um conhecimento especial de um problema ou assunto de interesse, correm o risco de explorá-las
  • “Os cineastas que escolhem observar os outros, sem intervir abertamente em suas atividades, correm o risco de alterar comportamentos e acontecimentos e de serem questionados sobre sua própria sensibilidade”
  • “Os cineastas que escolhem trabalhar com pessoas já conhecidas enfrentam o desafio de representar de maneira responsável os pontos comuns, mesmo que isso signifique sacrificar a própria opinião em favor da dos outros

Nichols defende, então, o princípio do “consentimento informado” – os participantes de seu documentário devem estar cientes das possíveis consequências de sua participação. Ele compara essa experiência a participação em testes médicos de uma nova droga. Não informar o participante dos possíveis efeitos colaterais do teste violaria a ética médica. Na produção de um filme documentário isso seria diferente?


Referências

Livros:
Introdução ao documentário, de Bill Nichols

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.