3 técnicas de roteiro que fizeram de ‘Minority Report’ um clássico

Minority Report (2002) é o tipo de filme que entrega uma série de lições de roteiro. Nós pegamos três delas que fazem desse filme de ficção científica previsível em um clássico instantâneo.

O filme “Minority Report” de Steven Spielberg que acaba sendo substimado dentro da obra do diretor em detrimento de obras consideradas mais brilhantes ou aclamadas pela crítica como A Lista de Schindler’s List ou ainda Jurassic Park. (Uma curiosidade interessante é que os dois filmes tem o mesmo ano de lançamento!)

Se você olha de mais perto, o filme mostra uma estrutura de ficção científica noir bem inteligente que trata sobre questões delicadas como livre arbítrio e tecnologia — além de ter um pouco de Tom Cruise correndo, uma de suas marcas registradas (risos) —, coisas que o roteirista Scott Frank desenvolveu de maneira fenomenal em seu trabalho, enquanto constrói um mundo paralelo sem que todos os datalhes dele tenham de ser explicados tão minuciosamente.

O roteiro de Frank permite que a história humana do filme se desenrole de maneira compreensível, confiando que os eventuais “buracos” dessa narrativa possam ser preenchidos pela direção. Este vídeo do Lessons from the Screenplay explica como ele faz isso:

Vamos mergulhar em três tópicos importantes sobre o filme que são explorados no vídeo.

1. “Escreva sua história como se ela estivesse acontecendo hoje.”

Dentro do roteiro, Frank e Spielberg concordaram em focar nas personagens e nas suas ações imediatas ao invés de explorar o ambiente high-tech no qual eles estava inseridos. Os dois reconheceram que o lado humano da história é justamente o que atrai as pessoas. Esse é um dos motivos pelos quais não é gasto tanto tempo explicando o que é o conceito do Precrime, mas sim pontuando por quê ele é importante para a personagem Anderton.

Você pode incorportar as mesmas sensibilidades ao seu roteiro se preocupando em focar no “por quê” ao invés de “o quê”. A gente percebe que a personagem de Tom Cruise é mais um cara legal e ele quer desesperadamente que Precrime tenha sucesso e seja uma coisa boa dentro da sociedade na qual vive. Sua história e motivação são muito mais interessantes. O que nos leva a …

2. A importância do drama!

A gente vai dar aquele famoso jeitinho pra falar um pouco sobre isso porque uma das cenas a que o vídeo se refere foi realmente (re)escrita por John August.
A cena é a que Danny Witwer, que foi interpretada por Colin Farrell, pergunta com ceticismo como o Precrime realmente sabe que as pessoas que eles prendem são culpadas.
Ao invés de começar uma conversa longa sobre mecânica quântica, probabilidade e certezas e todo um papinho sobre metafísica, Anderton simplesmente rola uma bola.
Aqui você confere a cena (infelizmente em baixa resolução e sem legendas 🙁 )

Parece simples, mas a filosofia que August usa é a de que ele precisava eliminar todas as perguntas do público naquele instante do filme, e não apenas as do Witwer. Ele faz isso com um exemplo simples e depois segue em frente no filme.

Essa forma de condução da história, na verdade, posiciona Witwer não apenas como um novato que pergunta inocentemente algo sobre uma realidade que ele desconhece, mas como um cético que quer entender o processo do todo. Isso o coloca em conflito direto com Anderton, mesmo antes de Anderton ser acusado de assassinato.

Conflito = drama,
o que faz com que a exposição do conceito seja muito melhor.

Você pode fazer o mesmo no seu roteiro garantindo que cada cena tem um obstáculo que a personagem esteja tentando superar. Independentemente se ela obtém sucesso ou não nessa superação, é dramático e o público quer ver isso.

3. Responda a questão principal (vulgo tema)

A Grande Questão que Minority Report pergunta é “Nós temos livre arbítrio?” O roteiro de Scott Frank de maneira muito inteligente responde isso com um forte SIM na cena de maior dramaticidade do filme: o suicídio de Burgess e o subsequente desmantelamento do Precrime.

Mas note por quê a questão é tão importante: a personagem de Anderton começa o filme acreditando no Precrime como ferramenta de reforço à manutenção da lei, e ele muda de ideia ao fim, entendendo que o Precrime deveria acabar.

Frank não só responde a grande questão do filme, como ele também encerra a arco do herói, um elemento importantíssimo dentro da construção de roteiros e história que realmente sejam completas.

Seu roteiro também deve ter uma grande pergunta, mesmo que não seja tão abertamente quanto o do Minority Report. Parte da criação de personagens interessantes está em dar a eles espaço para crescer, e fazer com que eles mudem de opinião sobre a Grande Questão.

A jornada emocional que os força a mudar é o que levará o público a se apaixonar por seu filme.

Fonte: No Film School

Deixe seu comentário
Share

Escritor e redator, formado em Rádio e Televisão pelo Complexo FIAM-FAAM, apaixonado por literatura e observador míope do espaço sideral.

JUNTE-SE A MAIS DE 50.000 PROFISSIONAIS DE AUDIOVISUAL