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A proporção de tela como recurso narrativo no Cinema

A proporção de tela (razão de aspecto) de uma produção não precisa ser apenas a moldura onde se passa o filme. Descubra exemplos onde ela auxilia a narrativa.

Rafael Alessandro 10 anos atrás

A proporção de tela (ou razão de aspecto) no cinema se dá pela divisão da largura pela altura da imagem dos frames (quadro estático) de um filme. A partir deste cálculo, temos o formato da tela em que se desenvolverá a mise-en-scène (encenação) da produção. Por se tratar de uma escolha tomada pelo diretor e diretor de fotografia da produção, a razão de aspecto adquire não apenas um caráter estético no filme, como também amplia a experiência do espectador e auxilia o roteiro - ao explorar o seu potencial narrativo.

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Proporções de tela comuns no cinema

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No início da história do cinema, Thomas Edison, William Dickson, os Irmãos Lumière e outros inventores estabeleceram em seus trabalhos, ainda experimentais, um formato retangular para o quadro de suas produções videográficas, que se assemelhava muito ao 4x3 das televisões de tubo da década de 50 ou razão de aspecto 1.33:1.

Com a chegada do cinema falado, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood estabeleceu, em 1930, uma padronização da proporção das produções de 1.33:1 para 1.37:1, permitindo a partir da mudança a inserção da trilha sonora na tira do filme.

Essa padronização durou até a década de 50, quando, em 1953, a Twentieth Century Fox introduziu no mercado o CinemaScope – uma tecnologia de captação e projeção que resultava em uma razão de aspecto de 2.66:1 – com o objetivo de ampliar o campo de visão do espectador e, assim, criar um atrativo acerca dos novos lançamentos, recuperando o público que a televisão havia tomado das salas de cinema.

Desde então, muitas outras técnicas de captação e projeção foram criadas, como o Technirama, Vistarama e CineMiracle. Mas, com o passar do tempo, já estabelecido industrialmente, o cinema passou a adotar a proporção de tela não mais como uma maneira de atrair público para as salas de cinema, mas como um recurso narrativo, complementando a mise-en-scène, a montagem, o som e a cinematografia.

O potencial narrativo da proporção de tela

Em “Irmão Urso” (2003), dirigido por Aaron Blaise e Robert Walker, os primeiros 25 minutos da animação foram apresentados nos cinemas com a razão de aspecto de 1.85:1, mudando, posteriormente, para 2.35:1. Essa mudança acontece após a transformação do personagem principal, Kenai, até então humano, em urso. A ampliação do campo de visão do personagem foi um dos recursos narrativos encontrados pelos diretores para transmitir a nova perspectiva adquirida pelo personagem, que quando humano possuía uma visão limitada.

O mesmo acontece em “O Grande Hotel Budapeste” (2013), de Wes Anderson. Mas, desta vez, a mudança na razão de aspecto durante o filme demarca a alternância do período histórico entre cada cena. Wes Anderson e Robert D. Yeoman (diretor de fotografia) utilizam a proporção de tela como um recurso visual para demarcar a época de cada narrativa. Com isso, o espectador acostuma-se a ver os mesmos personagens dentro de uma mesma moldura, possibilitando que o roteiro viaje por diversas épocas sem confundir seu publico. Este foi apenas um dos recursos encontrados por Robert D. Yeoman, que também utiliza a colorização, iluminação e direção de arte juntas para criar diferentes resultados dentro de um mesmo ambiente.

Diferente das produções de Aaron Blaise, Robert Walker e Wes Anderson, Brad Bird utilizou a mudança da proporção em “Os Incríveis” (2004) como forma de demarcar a limitação dos recursos de captação de vídeo de cada época apresentada no roteiro. Isso pode ser observado nos primeiros minutos de filme, quando somos introduzidos aos personagens, ainda jovens, prestando depoimento frente a uma câmera. A presença da câmera é demarcada pela quebra da quarta parede pelos personagens, que respondem às perguntas de um entrevistador que está fora de campo, e pela utilização de um microfone lapela para a captação do áudio dos entrevistados.

Quando o espectador perde o ponto de vista documental, passando da câmera subjetiva do “personagem câmera” para um ponto de vista objetivo, sem a presença de uma elipse temporal demarcada, a proporção passa de 1.33:1 para 2.35:1. Logo, nesta produção, a alteração da razão de aspecto demonstra novamente a passagem do tempo, mas desta vez explicitando as limitações da captação de imagens desta época ao simular uma imagem documental de um filme 16mm.

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Para saber mais sobre os efeitos que cada proporção de tela causa no expectador, confira o vídeo “Aspect Ratio: Which Should You Choose?” (legendado):

Fontes: A Razão de Aspecto no Cinema e A alteração da razão de aspecto de filmes na distribuição home video

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