Over the Shoulder (OTS): o que é e como usar

Você já deve ter visto algo dele por aí, mas será que você sabe o que é o Over the Shoulder e sabe como usar?

A diferença entre uma cena de discussão ou de declaração amorosa pode estar justamente no distanciamento ou proximidade dos atores. Em termos de plano, uma das formas de mostrar distância é o plano geral, colocando os atores em posições opostas ou distantes na tela. Já para uma cena mais romântica e de declaração entre amantes, por exemplo, um plano mais fechado é mais indicado por colocar em foco quem deve estar. Quando se fala em criação narrativa através dos planos, existem muitas formas de construir uma mesma narrativa. Os diálogos, principalmente ocorridos entre duas personagens, recorre a planos como o Over The Shoulder (OTS), literalmente, Por Cima dos Ombros em inglês.

O que é o Over The Shoulder

O Over The Shoulder (OTS) é um plano que posiciona duas personagens uma de frente para outra numa cena, de modo que uma fique de costas para a câmera e um tanto fora de foco, enquanto a outra fica evidente, isso feito de maneira que a câmera tome a visão por cima dos ombros da personagem que está de costas para a câmera.

Na definição a coisa parece um pouco difícil, mas na tela ela é bem recorrente e fácil de identificar exatamente por ser uma visão por cima do ombro de uma das personagens.

Por quê usar o OTS?

Esse uso frequente do OTS em cenas de diálogos evidencia a sua utilidade: esse é um plano que cria uma certa “empatia” com o público por estabelecer uma visão quase intimista com a personagem que é gravada de frente para o público. Quando usado, o plano parece colocar a personagem falando para o público que a assiste.

Assim, uma das formas de trazer essa imersão à cena é usar o OTS no diálogo dela — e aqui está o porquê aquela cena de romance clássica usa OTS. Esse tipo de enquadramento privilegia a noção direcional do diálogo e dá uma noção de envolvimento com a história, trazendo traços de realidade, como se a audiência fosse capaz de estar ali dentro daquela história, durante a duração do Over The Shoulder.

Algumas dicas

Ainda que não haja uma lista clara de quando usar ou quando não usar o OTS dentro do seu próximo vídeo, algumas coisas são muito valiosas para que a mensagem que você quer passar com esse enquadramento chegue da melhor forma ao seu público.

A linha dos olhos

Um dos fatores que importa muito na hora de estabelecer a conexão entre o plano e o que a audiência acompanha é a linha dos olhos. Para onde sua personagem olha determina a mensagem que será passada: um olhar voltado mais para cima poderá mostrar intimidação ou timidez, da mesma forma que um olhar mais para baixo demonstraria uma posição mais intimidadora de uma das personagens.

O que está em quadro

Como o próprio nome do plano já diz, o Over The Shoulder prevê que as duas personagens apareçam, ainda que essa regra possa ser quebrada de vez em quando. A grande questão é o cuidado para que a personagem que está de frente para câmera não perca espaço de tela para outras coisas que podem, eventualmente, tirar seu foco diante do público, o que quebraria a ideia de um OTS e colocaria a personagem em foco isolada em um Plano Médio ou Primeiro Plano.

O Excesso

Por ser um plano que não é novidade no cinema, aplicar o Over The Shoulder exige um pouco de cuidado: cenas de diálogos muito extensos, bem como várias cenas com o mesmo enquadramento podem produzir um distrativo para quem assiste, por isso é sempre bom pensar em como aplicar o Over The Shoulder para que ele não atrapalhe a sua mensagem.

Alguns exemplos


Na imagem acima, de Titanic (1997), vemos uma cena bastante forte na qual uma criança observa sua mãe, enquanto o navio afunda. A mensagem que a imagem traz, ao usar o OTS com a linha dos olhos deslocada para cima, é justamente a da inocência, do medo e da procura da segurança na figura da mãe que o garoto projeta em um cenário de caos.


Já em Amour, de 2017, a cena em que George segura o rosto de Anne é de uma delicadeza especial. Aqui o OTS é usado justamente para externar o sentimento que é mais explorado durante o filme: o amor dentro da relação entre os dois idosos.


Em The Dark Knight Rises (2012), além de brincar com a cor e contraste (e o Bruno Baltarejo tem um artigo fantástico falando dela bem aqui), o diretor Cristopher Nolan põe os dois arquinimigos no OTS para mostrar seu enfrentamento em um interrogatório e para posicioná-los diante da audiência para criar a polaridade que cada uma das personagens representa ali — o OTS é ainda complementado por um diálogo que é muito bem pensado em termos de polaridade (papo para outra hora, é claro).

Uma das coisas que é mais interessante dentro do Over The Shoulder é que ele tem um alto poder narrativo por si próprio: a capacidade de transportar o público para dentro do diálogo ou mesmo a inclusão desse espectador para dentro da realidade daquilo que está sendo dito é algo que pode ser muito bem explorado. Por mais que esse seja o tipo de plano batido de cinema, o Over The Shoulder parece sempre encontrar seu lugar na produção.

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Escritor e redator, formado em Rádio e Televisão pelo Complexo FIAM-FAAM, apaixonado por literatura e observador míope do espaço sideral.