Os princípios da organização visual – Parte 2

Iniciamos na semana passada uma investigação sobre os princípios da organização visual (leia aqui a parte 1) e hoje damos sequência analisando a proporção, a dominância, o movimento e a economia, de acordo com Otto G. Ocvirk (e outros autores) em Fundamentos de Arte: Teoria e Prática.

Proporção

Quando relacionamos uma parte individual com outra parte ou com o todo estamos tratando da proporção. A proporção de ouro, ou seção áurea, foi estabelecida pela filosofia clássica grega como representação do que seria um padrão ideal – na vida e na arte – de proporção e equilíbrio. Para a representação da figura humana, os gregos possuíam regras próprias de proporção, como Policleto, que é tido como primeiro escultor a codificar em um tratado que a “figura humana deveria ter sete cabeças e meia de altura, e a distância do topo da cabeça ao peito, um quarto da altura total”.

A série de Fibonacci – a soma dos dois números anteriores para obter o próximo, como 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13… -, por exemplo, também possui a mesma razão da proporção de ouro: 1:1,6180. Otto Ocvirk explica a utilização prática desse valor, em que “qualquer nova unidade será menor ou maior que a unidade original em uma proporção de 1 para 1,6180“.

Assim como os gregos, Leonardo Da Vinci também se interessava pelas proporções humanas. Em um de seus desenhos mais conhecidos, o Homem Vitruviano, o artista insere uma figura masculina em um círculo e em um quadrado, destacando a simetria entre a altura da figura e a largura de seus braços abertos, além de evidenciar as pernas como o centro do quadrado e o umbigo como centro do círculo.

Dominância

A partir da ideia de variação apresentada em nosso artigo anterior, os artistas podem realçar a importância de determinados motivos (pessoas, objetos…), criando um foco principal em cena, e, consequentemente, áreas secundárias.

Ocvirk elenca alguns métodos para alcançar essa dominância:

  • Isolamento: “a separação de uma parte das demais partes”;
  • Localização: “o ‘centro do palco’ é a mais comum, mas outra posição pode ser dominante dependendo do entorno”;
  • Direção: “um movimento que dirige o foco”;
  • Escala ou proporção: “as dimensões maiores normalmente dominam, mas uma escala ou proporção incomum também chama a atenção”;
  • Caráter: “uma diferença significativa na aparência geral é notável (como uma mudança na natureza da linha)”.

É graças a dominância, seja nos elementos anteriores, ou pela cor, valor e textura, que o espectador é orientado em sua observação da obra. Na obra de Warhol, as 100 latas de sopa têm praticamente a mesma importância, e a ausência da dominância (se ignorarmos o fator de localização) vai ao encontro da proposta do artista, da reiteração exaustiva daquele produto, em diálogo com seus trabalhos de apropriação da cultura de consumo.

Movimento

Em outros casos, o contraste entre as áreas principais e as secundárias são imprescindíveis. É difícil imaginar uma pintura de Caravaggio, dentro da técnica do chiaroscuro, em que a luz não seja um elemento de dominância, ou que a disposição dos personagens não direcione nosso olhar.

Na obra A Dúvida de Tomé (1599), por exemplo, Caravaggio cria um movimento a partir da distribuição de luz no ambiente, do posicionamento dos personagens e principalmente do direcionamento do olhar compartilhado pelas quatro figuras.

O fundo escuro pode parecer não ter importância na composição, mas é graças a ele que se cria um contraste com as imagens iluminadas, possibilitando essa dominância. Da área em destaque, é quase imediato nosso impulso de olhar para a mão de Tomé tocando a ferida de Cristo. Em seguida, passamos aos rostos dos personagens, menos iluminados que a mão do personagem e a túnica branca, mas recebendo mais luz que outras áreas de escurão absoluta – o que indica uma hierarquia entre essas unidades.

Economia

Vistos todos esses elementos que compõem nossa organização visual, por fim, a economia busca uma forma eficaz de expressar o que se pretende sem excessos. O uso arbitrário de um elemento pode implicar em um ruído que não condiz com a unidade da obra.

Esse princípio subjetivo parte do instinto do artista, que deve dosar se ele insiste em detalhes mais elaborados ou retorna aos princípios básicos daquela proposta. Como aponta Ocvirk: “se algo funciona em relação ao todo, é mantido; se for incômodo, deve ser retrabalhado ou rejeitado“.

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Referências

Obras:
A Dúvida de Tomé (1599), de Caravaggio

Livros:
Fundamentos de Arte: Teoria e Prática, de Otto G. Ocvirk, Robert E. Stinson, Philip R. Wigg, Robert O. Bone e David L. Cayton.

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.