O uso da rotoscopia em Zoom

A rotoscopia surge como uma forma de otimizar a produção de animações, fazendo com que suas dimensões ficassem mais reais e seus movimentos mais suaves. Ela tem como referência uma imagem captada em vídeo, que é redesenhada quadro a quadro por um artista, resultando, então, na animação.

O inventor do rotoscópio foi Max Fleischer, em 1915. Na imagem abaixo, você confere o funcionamento do aparato utilizado na época para a criação de animações com rotoscopia.

Mas a técnica não foi utilizada somente para transformar imagens live-action em animações. Os Pássaros (1963) de Alfred Hitchcok utilizou rotoscopia para a inserção dos pássaros em determinadas sequências, e levou três meses para dois artistas concluírem o trabalho.

Star Wars também utilizou a técnica para substituir os sabres de luz nas cenas de luta e ressaltar seu brilho, que foram contornados frame a frame.

No Brasil, Zoom (2015), dirigido por Pedro Morelli, utilizou a técnica em uma de suas três narrativas simultâneas do enredo. Na história, Emma é uma quadrinista que precisa ganhar dinheiro, e é ela quem ilustra, dentro da diegese, Edward (Gael García Bernal), um diretor de cinema que é apresentado na tela em rotoscopia.

As gravações de Edward aconteceram em 30 cenários diferentes, dentro de um estúdio. E engana-se quem pensa que as gravações em live-action do personagem são iguais a qualquer outro filme. Tudo precisava ser pensado previamente, antecipando possíveis dificuldades que os ilustradores e a equipe de animação teriam com as imagens, com o cenário, com o figurino.

Quanto a composição dos traços, o diretor reforça que as escolhas que ditavam a composição dos desenhos eram baseadas no próprio roteiro. Como as ilustrações dentro da narrativa foram criadas por Emma, toda a estética ao redor de Edward deveria partir da personagem – como o uso das cores, por exemplo. Para o diretor, nenhuma escolha era gratuita: “isso (que vemos) é o que a nossa personagem que está desenhando faria“.

“Não é pra ele parecer um filme. É pra parecer um quadrinho sendo feito por uma personagem” Marcelo Souza – Supervisor de VFX

A direção de fotografia também teve que se adaptar. Em diálogo com a pós-produção, eles optaram pelo uso de uma luz contrastada – de áreas bem iluminadas e de outras mais escuras – que se aproximava mais da linguagem das graphic novels. Os enquadramentos do filme também simulavam os enquadramentos que encontramos nos quadrinhos, exatamente para recriar a produção dessa personagem.

E o uso da rotoscopia, que tende a manter uma certa fidelidade dos movimentos, estende essa fidelidade para a atuação dos profissionais em cena em detalhes mínimos, como a respiração dos personagens. O que dá segurança em colocar um ator como Gael García Bernal no filme para ser visto apenas pelas lentes dessa técnica.

As cenas em rotoscopia no filme utilizaram a cadência de 12 frames por segundo, e tiveram cerca de 30 minutos de tela. O que resulta em mais de 20 mil frames trabalhados um a um. A finalização do filme aconteceu em duas frentes, uma responsável pela finalização geral do longa e a outra dedicada apenas aos desenhos. Foram cerca de 70 profissionais envolvidos apenas nessa etapa.

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.