Apolo x Dionísio: a dicotomia nas artes segundo Nietzsche

Nietzsche apresenta em sua filosofia dois conceitos que se referem aos deuses gregos Apolo e Dionísio. E é a partir dessas duas figuras de forças contrárias que ele traça uma dicotomia das artes. Mas antes de tratar desse estatuto da arte, quem são esses deuses gregos que para Nietzsche são capazes de sintetizar diferentes impulsos na criação artística?

Dionísio (ou Dioniso, ou Baco, variação romana do nome grego) é filho de Zeus e Sêmele, e por ser o deus do vinho foi constantemente representado em vasos e esculturas segurando cachos de uva em uma mão e um cântaro – vaso de barro ou metal utilizado pelos gregos para transportar líquidos – em outra. Para além do vinho, Dionísio também é tido como o deus dos excessos, da alegria, das festas, da loucura, da bebedeira (intoxicação) e do teatro.

Por outro lado, Apolo é o deus da luz. Irmão de Hermes, Hefesto, Ares e Atena, filho de Zeus e Leto, é considerado um dos maiores deuses do Olimpo e foi retratado ao longo dos anos como um belo jovem desnudo. Ao contrário de Baco, um deus dos excessos, Apolo é ponderado, comedido. E é a partir daí que inicia a relação não apenas de oposição entre esses deuses, mas também de complementaridade.

Antes de traçar uma possível combinação que essas forças opostas são capazes gerar, Nietzsche propõe uma divisão do universo artístico entre o sonho e a embriaguez.

No sonho “nós desfrutamos de uma compreensão imediata da figuração, todas as formas nos falam, não há nada que seja indiferente e inútil”. É também no sonho que figuras divinas são reveladas as almas humanas e que os poetas se nutrem. A partir dessa perspectiva onírica, encontramos a pulsão apolínea da arte.

Em Apolo encontramos a manifestação da bela aparência do mundo interior da fantasia. Um deus cujos “gestos e olhares nos falam todo o prazer e toda a sabedoria da aparência, juntamente com a beleza”. Por esse motivo, para Nietzsche as artes plásticas – em que a aparência, a beleza, a plasticidade e as formas materiais são indissociáveis – manifestariam um impulso apolíneo, quando estiverem atreladas a uma dissimulação ou metáfora do mundo.

Na contramão dessa experiência onírica apolínea, surge a embriaguez dionisíaca. A associação entre o vinho de Dionísio e essa embriaguez é imediata. Ela apela para os instintos naturais (e animais), não mais para a racionalidade. As estruturas lógicas de Apolo dão lugar as emoções de Dionísio. A música seria então a manifestação dionisíaca por excelência. Uma arte com caráter abstracionista que prescinde da forma.

Dessa maneira, Nietzsche encontra na tragédia grega uma fusão dessas forças antagônicas, mas complementares, atrelando a energia emotiva dionisíaca a forma estrutural apolínea.

Essas apresentações teatrais estavam inseridas em um ritual dentro das comemorações ao deus Dionísio. O concurso de tragédias premiava seu vencedor com uma cabra – “tragos” em grego, o que explicaria a origem da palavra tragédia. Esse animal era sacrificado durante o ritual, como um tributo.

E o caráter purificador da tragédia não aparecia apenas na imolação do animal. Uma vez que finalidade primordial dessas apresentações era purgar a compaixão e o terror, a boa tragédia (que para Nietzsche são as de Ésquilo e Sófocles) promovia um efeito catártico, purificando as impurezas e falhas humanas do protagonista do enredo e, junto dele, do espectador.

Referências

Livros:
O nascimento da tragédia, de Friedrich Nietzsche
O mundo completo da mitologia grega, de Richard Buxton

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.