Aspectos fundamentais da mise-en-scène: Iluminação

Na semana passada, nosso blog apresentou a primeira parte dos aspectos fundamentais da mise-en-scène: cenário, figurino e maquiagem. Agora, é a vez da iluminação.

A luz é tudo. Ela expressa ideologia, emoção, cor, profundidade, estilo. Ela pode apagar, narrar, descrever. Com a iluminação correta, o rosto mais feio e a expressão mais idiota podem irradiar beleza ou inteligência” (Federico Fellini)

Iluminação

Uma das funções mais básicas da iluminação é permitir que vejamos ou não certa área durante a ação. Uma composição com áreas mais claras e mais escuras é capaz de guiar o olhar do espectador no quadro, fazendo com que ele esteja atento a um gesto ou objeto importante para o desenvolvimento narrativo, ou fazendo com que ele deixe de ver esse mesmo gesto ou objeto para que o suspense da trama se sustente.

Bordwell e Thompson, em A arte do cinema: uma introdução, elencam quatro características principais da iluminação no cinema: qualidade, direção, fonte e cor.

Quanto a qualidade da iluminação, temos a iluminação concentrada e a iluminação difusa. A primeira imprime sombras bem definidas, realça texturas e diferentes contornos, assim como o sol do meio-dia. Já um céu nublado está próximo da iluminação difusa, que apresenta uma iluminação mais dispersa.

A direção da iluminação pode ser frontal, lateral, contraluz, de baixo ou de cima. A iluminação frontal é capaz de eliminar sombras, enquanto a lateral (ou luz cruzada) delimita algumas características do personagem para o público. O contraluz, por sua vez, cria uma silhueta quando utilizado como fonte única de luz. Se combinado com outras luzes frontais mais intensas ele tem função de luz de contorno.

A luz de baixo é capaz de distorcer as características de rostos ou objetos pela sombra que produz. É fácil imaginar uma pessoa que ao contar uma história de terror direciona uma lanterna em seu queixo, de baixo para cima, produzindo sombras que distorcem seu rosto. Ao contrário, a luz de cima foi muito utilizada para destacar a linha da maçã do rosto, realçando a beleza das estrelas de Hollywood (como na foto em destaque do artigo) – quase como um holofote.

A fonte também é essencial para pensarmos a iluminação. Ao contrário do cinema documentário, que por vezes utiliza apenas a luz disponível para realizar suas gravações, na ficção o cineasta utiliza luzes extras, que não fazem parte da mise-en-scène (como postes e luminárias), para iluminar toda a cena. Mas, mesmo utilizando essas diferentes luzes, existe um esforço para que essa iluminação esteja de acordo com as fontes de luz da diegese.

Bordwell e Thompson apontam o pressuposto de que a iluminação de um objeto no cinema requer ao menos duas fontes de luz: uma luz-chave e uma luz de preenchimento. A luz mais fonte, mais dominante, que projeta sombras mais intensas é a luz-chave – ou luz de ataque. E para atenuar essas sombras fortes utilizamos a luz de preenchimento – ou de compensação. O cinema clássico hollywoodiano utiliza ainda o contraluz, completando, assim, a iluminação de três pontos.

Essa iluminação de três pontos pode resultar em diferentes composições de luz, de acordo com a intensidade de cada fonte. A iluminação em high-key, por exemplo, busca um baixo contraste entre as áreas mais claras e as áreas mais escuras da composição. Já a iluminação em low-key acentua esse contraste, com sombras bem demarcadas e escuras. Enquanto o primeiro estilo foi amplamente utilizado em comédias e dramas, o segundo se consolidou em filmes de terror e no cinema noir.

Por fim, em relação a cor da iluminação podemos encontrar diferentes tonalidades de luz. Além da luz branca do sol e da luz amarela das lâmpadas incandescentes, o fotógrafo pode optar por uma cor que escapa do naturalismo da cena para evocar uma diferente atmosfera. É o que acontece em Ivan, o Terrível (1944), de Serguei Eisenstein. Bordwell e Thompson apontam para a motivação do fotógrafo ao iluminar com uma cor irreal a cena: “utiliza uma luz azul lançada subitamente sobre um ator, de maneira não diegética, para sugerir o terror e a incerteza da personagem”.

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Referências

Livros:
A arte do cinema: uma introdução, de David Bordwell e Kristin Thompson

Filmes:
Ivan, o Terrível (1944), dirigido por Serguei Eisenstei

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.