A Jornada da Edição – A indústria do cinema e o período pós-clássico (Parte 3)

Depois que o cinema surge como forma de entretenimento, uma grande mudança começa a ocorrer na lógica de fazer filmes.

A gente já viu que produzir filmes no início do cinema era uma tarefa complicada, reservada, muitas vezes, aos cientistas que dispunham da técnica e dos materiais, na maior parte das vezes, invenções próprias. Com o passar do tempo, no começo dos anos 1900 até a década de 1920, com a popularização da técnica e maior disponibilidade dos materiais, surgiram novos cineastas e novas formas de consumo de conteúdo, o que impulsionou ainda mais o cinema como atividade para entreter o público.

O surgimento de uma Era

A partir dos anos 1935 até a metade dos anos 1950 o cinema viveria sua Era de Ouro, principalmente dentro do cinema de Hollywood. É dentro de Hollywood que o cinema ganha status industrial, adotando métodos e padrões para construção de filmes e incorporando a noção do que era cinema, adotando a lógica estabelecida por Griffith, com histórias com começo, meio e fim, além de ter um formato de narrativa bem estabelecido, conforme a Narrativa em Três Atos:

Foi durante a Era de Ouro do cinema hollywoodiano que começaram a nascer os gêneros de cinema que conhecemos até hoje, como o musical, a comédia, faroeste, ficção científica, entre outros, produzindo os primeiros e grandes clássicos do cinema que serão referências e base para os filmes recentes dentro de seus respectivos gêneros.

Uma nova forma de narrar

A forma como esses filmes lidavam com a história era feita a partir de uma personagem cuja trajetória era de maior importância, focando nela e nas coisas pelas quais essa personagem passaria durante toda a história até o encerramento, ainda dentro da Narrativa em Três Atos.

A variação de planos, por conta desse eixo em volta do personagem, era limitada a planos médios e planos médios longos, que favorecem o personagem como foco da narrativa. Além disso, o foco no diálogo era levado como meio mais importante para contar a história e o que se passava com a personagem, isso justamente para evidenciar a relação do protagonista com seu meio.

A Produção em escala industrial e o Sistema de Estúdios

Quanto à produção dos filmes, a Era de Ouro foi responsável pelo surgimento de grandes estúdios que produziam os filmes em torno de um “Sistema”: esse esquema era responsável por unir as partes necessárias para produção de um filme, de maneira que mão de obra e financiamento pudessem ocorrer dentro de uma mesma empresa inserida na indústria cinematográfica de Hollywood.

O Sistema dava um poder gigantesco para que esses estúdios determinassem aquilo que seria feito em termos de forma e conteúdo. Como qualquer esquema de indústria, o objetivo desses estúdios era produzir e distribuir o máximo de filmes possíveis dentro de um espaço de tempo delimitado e com um certo orçamento. Para isso, os padrões de produção que eram exigidos dos funcionários eram os mesmos, criando uma verdadeira linha de produção em termos cinematográficos. É daí que surge a noção de indústria: a atividade artística começa a ceder lugar, pelo menos por um instante, para a atividade comercial em torno da produção de filmes.

Assim, tendo seus objetivos em mentes, esses estúdios estabeleciam fórmulas a serem seguidas e que eram duramente observadas no momento da produção do filme.

Casablanca (1942), do diretor Michael Curtiz, é um exemplo de filme que segue a fórmula vigente em Hollywood à época, mas que, pela sua qualidade de conteúdo e de história, é considerado hoje um clássico do cinema internacional.

A solução criativa: a interpretação

Aqui vale comentar que, apesar de estarem amarrados a um sistema que, ao fim, podava algumas liberdades, os atores da época tinham em suas interpretações uma espécie de escapatória à fórmula preestabelecida pelo estúdio. O exagero ou foco intenso na emotividade, a pausa dramática ou um intervalo mais longo entre falas e a surpresa na revelação de fatos importantes dentro da história acabavam por ser frequentes dentro do contexto da produção de filmes da época, e essa frequência fez com que isso se tornasse um fator estético da interpretação desses filmes.

O rompimento de alguns padrões

Ainda que a produção de filmes na Era de Ouro do cinema de Hollywood estivesse estabelecida enquanto indústria, nomes como o de Orson Welles surgiram como contraponto a essa visão de cinema. Sua obra-prima, Citzen Kane, 1941 (Cidadão Kane) traz novas perspectivas ao cinema ao alinhar não só diálogo e personagem que é protagonista da história, mas também ao associar texto, tempo — já que a edição é responsável pelo estabelecimento da noção temporal — e imagem na exibição de seu filme, com enquadramentos que permitissem que a história também fosse contada por meio deles.

Outro cineasta que pode ser lembrado em termos de rompimento é Alfred Hitchcock, que surgiu como produtor de filmes ainda no tempo do cinema mudo, transitou pela Era de Ouro e, de certa forma, se reinventou várias vezes em suas produções, fazendo filmes até o final da década de 70, já perto do seu falecimento.

Hitchcock levava em consideração as experiências e a influência do também cineasta soviético Lev Kuleshov, principalmente ao estabelecer sentido através da associação de duas imagens para produção de um novo significado a partir delas, conforme descreve o Efeito Kuleshov, descoberto ainda no começo do século XX. Entre seus maiores sucessos estão Rear Window, 1954 (Janela Indiscreta), Vertigo, 1958 (Um Corpo que Cai) e Psycho, 1960 (Psicose).

O esgotamento

Claro que o modelo de produção dos estúdios de Hollywood e da Era de Ouro do Cinema apresentariam, hora ou outra, sinais de seu esgotamento, já que os títulos apresentavam uma mesma fórmula para o desenvolvimento de suas histórias.

Dentro desse contexto, surgiram movimentos que se opunham à noção industrializada de Hollywood como o Nouvelle Vague, na França, que pregava uma edição um pouco mais desprendida da noção de continuidade vigente até ali no cinema americano. Desse período destacam-se nomes como o de François Truffaut e Jean-Luc Godard, diretor de filmes como A Bout de Souflle (1960) (“Acossado”, em português)

O plano sequência e o uso de poucos planos para uma mesma cena de diálogo passam a ser mais frequentes dentro desse novo cenário de oposição em contraposição àquilo que era feito no cinema da Era de Ouro. A ideia era transportar o público para mais próximo da cena que era mostrada, fazendo-o enxergar a reação de personagens e aquilo que era vivido por elas de maneira mais “realista”.

O período pós-clássico

A reação de Hollywood à movimentação de oposição que surgiu no cinema foi inovar no sentido de juntar tanto influências desse cinema, como o Nouvelle Vague, quanto influências do cinema clássico americano, e é aqui que surge a noção do diretor de cinema americano enquanto artista.

O cinema pós-clássico tem por característica muito forte a noção autoral que esses diretores impunham às suas obras, além do presente uso da edição como forma narrativa do conteúdo de suas histórias. Isso e as questões sociais do pós-segunda guerra, vão constituir as grandes temáticas desses filmes. Um destaque essa época é The Graduate, 1967 (A Primeira Noite de Um Homem), de Mike Nichols.

A partir desse momento, novas inovações e novas formas de usar som e imagem, além de novidades no campo tecnológico, surgirão para implementar a forma de se narrar uma história, de maneira que as produções que foram feitas no período pós-clássico têm seu peso dentro da história do cinema por terem utilizado referências que podem ser vistas não só em um período da história do desenvolvimento do cinema, mas por serem uma mistura de todos os elementos do que foi feito até ali. Jaws, 1975 (Tubarão), de Stiven Spielberg é um dos filmes que associa linguagem e tecnologia na construção do suspense da narrativa.

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Escritor e redator, formado em Rádio e Televisão pelo Complexo FIAM-FAAM, apaixonado por literatura e observador míope do espaço sideral.