A Importância da Transição

Por mais que cortar repentinamente não seja um problema, nem sempre o corte seco vai transmitir a ideia correta na mudança de cenas: é aqui que ocorre a transição.

A transição é uma forma de ir de uma cena para outra sem que haja uma percepção abrupta de mudança, ainda que ela esteja lá. Ou mais, a transição será a responsável por pegar partes diferentes de cenas completamente opostas de modo a desenvolver sentido entre elas. Bem usadas, as transições contribuem para construção da narrativa.

Mais do que meras técnicas, as transições são verdadeiras formas de criatividade artística expressada na tela.

Apesar de algumas das técnicas que serão citadas aqui terem nascido em um período em que o filme era uma película, as novas transições, principalmente feitas por meio da computação gráfica tem colocado o tema em níveis inimagináveis.

No Match Cut ou Raccord, por exemplo, temos uma transição que brinca com a opacidade de imagens, reduzindo proporcionalmente a opacidade da primeira cena para que a cena seguinte ganhe maior nitidez e haja certa fluidez entre as duas. Um exemplo disso ocorre no clássico filme de Stanley Kubrick, 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), quando um primata joga um osso para cima e a imagem resultante é um comparativo a flutuação de uma nave espacial.

Já no Frame Blocking ou Split Screen a transição acontece com algum objeto que passa em frente ao quadro, primeiro “dividindo a tela em dois” para depois caminhar para próxima cena, e que pode ou não ser acompanhado de uma movimentação da câmera em dolly, como acontece em Scott Pilgram Contra o Mundo (2010).

Com a transição Swish um movimento de câmera é simulado a partir de algum movimento do ator para disfarçar o corte que foi feito e criar um senso de continuidade. Como ocorre em Todo Mundo Quase Morto (2004), quando Shaun (Simon Pegg) está ao telefone, enquanto Ed (Nick Frost) gira uma pá suja de sangue. A movimentação da pá cria a ilusão de que se trata de um movimento de câmera quando, na verdade, houve um corte. Uma transição que usa do mesmo conceito é a Smooth ou Seamless, que usa o zoom para criar o mesmo efeito de movimento ao invés de corte.

Técnicas não faltam, mas é importante entender o papel da transição antes de tudo. Uma peça com transições demais fica sem conexão, além de não transmitir a mensagem correta e ter o efeito contrário: ela evidencia o corte. Uma peça sem nenhuma transição também pode passar a mensagem errada, uma vez que passa uma ideia aflitiva de falta de ar e de sucessibilidade de eventos sem qualquer pausa — nenhum dos dois é desejado se não for criado para esse fim.

Nesses dois casos ainda há o risco de a transição prejudicar a obra dando um aspecto ridículo a uma cena séria, um aspecto cômico a uma cena triste, ou ainda suave a uma cena angustiante e assim por diante. Não pensar na transição é perder toda a continuidade narrativa da sua história, e mesmo que queira criar um efeito abrupto, quebrar a narratividade é um erro que ninguém quer cometer.

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Escritor e redator, formado em Rádio e Televisão pelo Complexo FIAM-FAAM, apaixonado por literatura e observador míope do espaço sideral.