Audiovisual

Filmes clássicos para assistir online e de graça

Que desde o início da pandemia do novo coronavírus as plataformas de streaming conquistaram ainda mais espaço em nossas vidas você já sabia, mas com o aumento do número de serviços fica cada vez mais difícil de escolher qual plataforma assinar. Além disso, como apontamos em nosso último artigo, é comum não encontrar os grandes clássicos do cinema no acervo das grandes plataformas como Netflix, HBO Max, Prime Video…

Nesses momentos, plataformas de acesso gratuito e com um acervo que também privilegia os clássicos. E esse é o caso do projeto #emcasacomsesc – uma iniciativa do Sesc São Paulo, com exibição gratuita de filmes no Sesc Digital e curadoria especial do CineSesc. O catálogo é disponibilizado em alta definição, com legendas em português, e é atualizado semanalmente.


Acossado

Uma das obras-primas de Jean-Luc Godard, Acossado foi um marco da nouvelle vague francesa. O uso dos jump-cuts (saltos na montagem que causavam uma descontinuidade visual) foi abordado em um dos episódios da nossa série sobre Movimentos Cinematográficos no Youtube:

Para assistir ao filme, clique aqui.


O Homem Que Sabia Demais

Dirigido por Alfred Hitchcock, O Homem Que Sabia Demais é um dos poucos casos do cinema em que um cineasta revisita sua obra. A primeira versão, que está disponível na plataforma, foi lançada em 1934, e em 1956 o próprio Hitchcock foi responsável pela refilmagem do longa, que estreou com o mesmo título.

Essa é uma ótima oportunidade para assistir a primeira versão do filme e, em seguida, buscar pela refilmagem, estrelada por James Stewart, para notar a evolução do trabalho do diretor ao longo desses 22 anos. Ao comparar as duas versões, o próprio Hitchcock afirmou que a primeira versão era a obra de um amador de talento, enquanto a refilmagem foi o trabalho de um profissional.

Veja a versão de 1934 aqui. Já a versão de 1956 está disponível no Telecine, no Google Play e no Youtube.


Tangerine

O filme mais contemporâneo da lista estreou em 2015 e além de sua relevância temática e sucesso de crítica, a inovação tecnológica proposta por Sean Baker na captação do longa se destacou: o filme foi todo rodado em três celulares iPhone 5s.

Após o sucesso do filme, o equipamento foi adquirido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pela organização do Oscar, para compor o Museu da Academia, em Los Angeles. Além disso, os trabalhos das atrizes transgênero Mya Taylor e Kitana Kiki Rodriguez foram incentivadores para que a Academia levasse em conta a identidade de gênero dos atores na premiação.

Confira o filme aqui.


Retrospectiva Leon Hirszman

Além do #emcasacomsesc, o Sesc Digital disponibiliza também outras mostras temporárias, como a Retrospectiva Leon Hirszman, que estará disponível no site até 9 de fevereiro de 2021. Hirszman foi um dos grandes nomes do Cinema Novo brasileiro, também tratado em nossa série sobre Movimentos Cinematográficos:

No catálogo você encontra filmes como São Bernardo, Ecologia, Megalópolis e Eles Não Usam Black Tie. Confira aqui.


O Sesc Digital oferece ainda uma variedade de curtas e animações. Confira todos os filmes disponíveis, e conta pra gente qual você mais gostou. Não esqueça de acompanhar nossas redes – Facebook e Instagram – para não perder nenhum texto sobre cinema.

5 plataformas de streaming para cinéfilos

Com o foco das plataformas de streaming em produzirem conteúdo próprio, é normal fazer uma busca pelos grandes clássicos do cinema e não encontrá-los nos principais serviços. Segundo dados da Ampere Analysis, 81% de todo o catálogo da Netflix é representado por produções lançadas entre 2010 e 2019. Os filmes e séries da década de 70 a 90 representam, somados, apenas 6%. Aqui você pode conferir também os dados da HBO Max, Disney+, Prime Video e Hulu.

Uma forma de driblar essa dificuldade de acesso a filmes antigos é recorrer a plataformas menores, especializadas nesse tipo de conteúdo. O MUBI, por exemplo, conquistou a comunidade cinéfila entregando diariamente um filme, selecionado por sua curadoria, que fica disponível para acesso por apenas um mês. Uma rotatividade que garante conteúdos novos e ajuda os indecisos na escolha do que assistir.

Mas outras plataformas também permitem esse acesso a filmes clássicos e até mesmo recentes que circularam em festivais e que sequer tiveram a chance de entrar no circuito comercial.

Confira algumas delas:


Belas Artes À La Carte

O À La Carte do Belas Artes promete uma programação especial, assim como a do seu espaço físico, inaugurado em 1956. Seu catálogo é dividido em seções como: se você nunca viu um filme cult comece por aqui, preparem seus lenços, todo cinéfilo precisa ver antes de morrer, hahaha, cults incríveis, boy meets girl e outros.

Além disso, toda semana eles lançam um programa especial sobre as novidades que entraram no streaming. E pra quem sente falta de uma curadoria mais detalhada, cada filme da plataforma acompanha um extra intitulado Por que assistir?, onde um crítico apresenta rapidamente o filme – tudo sem spoilers. Bem parecido com as recomendações que recebíamos nas antigas videolocadoras.

Confira mais informações no site da plataforma: https://www.belasartesalacarte.com.br/


Tamanduá TV

Já a Tamanduá TV, além de filmes, apresenta um vasto conteúdo independente sobre música, arte, cultura, história… A plataforma dispõe de diversos planos, como CineBR, CineDocs, CineEuro, Curta+, CineEduca, MetaCine. Confira uma pequena descrição de cada plano:

CineBR: Uma seleção de filmes nacionais e séries com os bastidores do cinema brasileiro.
CineDocs: Para você que curte o gênero documentário, esse plano oferece as mais novas produções brasileiras, com os temas variados.
CineEuro: 50 filmes europeus escolhidos pelo Filmmelier, Ateliê de Filmes e participantes dos festivais de Cannes, Berlin e Veneza.
Curta+: Aqui você encontra parte da programação do Curta! O canal dos conteúdos relevantes.
CineEduca: O CineEduca tem mais de mil títulos para você, que é professor ou estudante do Ensino Fundamental II, Ensino Médio ou pré-vestibular, aprender e ensinar com filmes. Invista em uma formação diversificada e moderna!
MetaCine: Seleção de filmes e séries sobre os bastidores da sétima arte, além de clássicos do cinema brasileiro, para estudantes e cinéfilos.

Mas se você preferir, também pode alugar cada conteúdo individualmente. Confira o que está disponível na plataforma: https://tamandua.tv.br/


Spcine Play

A Spcine Play é a única plataforma pública de streaming do Brasil. Nesse ano de pandemia, foram eles os exibidores de diversas mostras e festivais que aconteceram virtualmente. O site é uma iniciativa da Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, e atualmente você pode conferir gratuitamente no site as seguintes seleções:

  • Festival de Cinema Russo
  • 15º Festival de Cinema Latino-Americano
  • Cine Tornado Festival
  • Phenomena Festival 2k20
  • Mostra Cine Brasil Experimental
  • 28º Festival Mix Brasil

Confira toda a programação no site: http://www.spcineplay.com.br/


Afroflix

Outra plataforma gratuita é a Afroflix, que constrói o seu catálogo com produções que possuem pelo menos uma área de atuação técnica/artística assinada por uma pessoa negra. Por hora, todo o conteúdo disponibilizado por eles – sejam filmes, séries, videoclipes – são brasileiros.

E o site também aceita inscrições e indicações de novas produções, já que se trata de uma plataforma colaborativa. A equipe também é composta apenas por pessoa negras, majoritariamente mulheres, reforçando a identidade do site.

Confira mais do Afroflix: http://www.afroflix.com.br/


Arte1 Play

Derivado do canal Arte1, o Arte1 Play tem o maior acervo digital de arte do Brasil. Seu compromisso é investir na formação de público no país, com um catálogo de filmes, séries, documentários internacionais e nacionais, além de programas produzidos pela própria equipe do Arte1.

A plataforma possui alguns conteúdos abertos, como a coleção Degustação, e outros pagos: CineClube Arte1, Arte1 em Movimento, MiniDocs, Bio Arte1, Arte1 Documenta

Se interessou? No site você tem pode conferir qual conteúdo está disponível em cada coleção: https://arte1play.com.br/


Você já conhecia essas plataformas? É assinante de alguma? Conta pra gente aqui nos comentários e acompanhe nossas redes – Facebook e Instagram – para não perder nenhum texto sobre cinema.

A restauração da obra de Glauber Rocha

Glauber Rocha foi autor do manifesto da Estética da Fome e único diretor a aparecer duas vezes na lista dos cinco melhores filmes brasileiros, segundo a ABRACCINE. Mesmo assim, como o próprio Glauber afirmava, uma minoria de pessoas conhecia seus filmes aqui no Brasil, enquanto eram aclamados no exterior.

Glauber Rocha é tido como o principal expoente do Cinema Novo, um movimento de vanguarda no cinema influenciado pelas novas ondas (nouvelle vague) do cinema francês e pelo neorrealismo italiano. Esta nova forma de cinema popularizou a frase “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça“, que ia na direção oposta dos filmes de grande circulação até então, em sua maioria chanchadas e filmes produzidos pela Vera Cruz, ainda muito influenciados por uma pompa europeia.

Após o falecimento de Glauber em 1981, Carlos Augusto Calil, diretor da Embrafilme, buscou por cópias dos filmes do diretor para organizar a mostra Retrospectiva Glauber por Glauber. Até mesmo filmes que tiveram seus negativos destruídos em incêndios, como Terra em transe e O dragão da maldade contra o santo guerreiro, tiveram seus internegativos resgatados ao redor do mundo, em Berlim e na França, respectivamente.

Para acompanhar a guarda e circulação desse material reunido, Lúcia Rocha, mãe do cineasta, fundou em 1983 o Tempo Glauber, uma associação cultural que passou a cuidar do acervo do diretor e que reuniu mais de 100 mil documentos.

Em 2017, o casarão no bairro de Botafogo no Rio de Janeiro que abrigava todo esse acervo foi fechado. O espaço, que funcionava como um centro cultural e atraia pesquisadores de todo o país, era um espaço cedido pelo INSS, e um aluguel de 25 mil reais passou a ser cobrado a família do cineasta com o fim do contrato de comodato.

Por conta do encerramento das atividades do Tempo Glauber, o acervo foi destinado à Cinemateca Brasileira, em São Paulo. Confira também nosso artigo sobre a importância da cinemateca brasileira.

Os critérios da seleção dos primeiros filmes restaurados pelo Projeto Coleção Glauber Rocha foram escolher, primeiramente, as produções que os direitos autorais pertenciam à família, e também trabalhar com filmes que não tivessem mais seus negativos originais, como os dois filmes citados anteriormente, perdidos em um incêndio.

Na fase 1 do projeto, foram restaurados os filmes Barravento, Terra em Transe, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro e A Idade da Terra. As cópias restauradas viraram DVDs e também circularam nos cinemas de todo o Brasil em cópias digitais e em película. E se o propósito era aproximar o espectador brasileiro à obra do cineasta, o projeto foi bem sucedido. Após seu relançamento, agora restaurado, em apenas duas semanas, Terra em Transe recebeu 10 mil espectadores nas salas de cinema.

E essa demanda de restauro dos filmes de Glauber não foi apenas para sua circulação nacional, seja em festivais ou home video. Festivais internacionais, desde então, vêm exibindo essas novas versões em melhor qualidade de sua filmografia.

Esse trabalho de restauração chama nossa atenção para a importância da preservação dos negativos e dos internegativos das produções. Como os negativos de O dragão da maldade contra o santo guerreiro foram destruídos, a melhor cópia encontrada do filme foi a master com os diálogos dublados em francês e com legendas nos trechos cantados.

Na restauração, o som foi substituído pelo áudio original em português, de uma cópia vinda da Cinemateca de Cuba. Foi desse híbrido entre a cópia cubana e a francesa que temos hoje a versão com melhor qualidade do filme. Infelizmente, uma vez que as legendas em francês estavam gravadas no internegativo, elas estão presentes na versão final restaurada.

Deus e o Diabo na Terra do Sol, sua obra mais conhecida, apesar de ter sido o primeiro filme de Glauber Rocha a ser restaurado, antes mesmo do Projeto Coleção Glauber Rocha, está passando por um novo processo de restauração em 2020, agora em 4K. Em fevereiro desse ano foi realizado escaneamento do negativo original, para, então, o som ser trabalhado posteriormente. A restauração está sendo feita por um investidor privado com a supervisão de Paloma Rocha, filha do realizador.

A fase 1 da Coleção Glauber Rocha foi lançada em DVD pela Versátil Home Video, que ainda levou Deus e o Diabo na Terra do Sol para as lojas. E todos esses filmes também podem ser encontrados em diversos serviços de streaming.

E você, tem algum filme preferido do diretor? Conta pra gente aqui nos comentários e acompanhe nossas redes – Facebook e Instagram – para não perder nenhum texto sobre cinema.

Os 5 melhores documentários brasileiros, segundo a crítica

Nós já apresentamos a lista dos 5 melhores filmes brasileiros, segundo a ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Mas como a lista era composta predominantemente por produções de ficção, trazemos hoje um top 5 dos melhores documentários brasileiros, também ranqueados pela ABRACCINE.


5. Serras da Desordem (2006)


Direção: Andrea Tonacci

O quinto lugar da lista aborda a questão indígena no Brasil. No filme, o diretor Andrea Tonacci se vale de uma tradição do documentário etnográfico, ensaístico, utiliza imagens de arquivo e telejornais, mas não abre mão dos recursos de ficção, ao propor que os próprios personagens façam a reencenação de sua própria história, como o índio Carapiru.

Carapiru é, simultaneamente, sujeito e objeto. Sujeito de sua fabulosa odisseia, que inclui o reencontro casual com o filho, Txiramukum, que também sobreviveu ao massacre e, por uma coincidência de tragédia grega, foi destacado pela Funai para ir a Brasília comunicar-se com ele em sua língua e investigar sua origem. E objeto dos vários olhares que reconstroem essa trajetória: das tevês e jornais, dos indigenistas, dos camponeses que o acolheram e, por fim, do olhar abrangente, lúcido, dilacerado e dilacerante de Andrea Tonacci. Se há um filme que expõe em carne viva a dificuldade de falar sobre a trágica condição do índio – essa ‘outra humanidade’ esmagada por uma desordem humana -, esse filme é Serras da desordem.” (José Geraldo Couto)

Você pode assistir ao filme no Tamanduá.tv ou no canal do Youtube da Funai.


4. Edifício Master (2002)


Direção: Eduardo Coutinho

A primeira aparição de Eduardo Coutinho na lista é graças a Edifício Master, um documentário ambientado nesse prédio de 273 apartamentos, localizado na praia de Copacabana, onde moram mais de 500 pessoas. De toda essa gente, Coutinho nos apresenta a história de 37 moradores, que abordam temas diversos.

A ausência de preconceitos acerca dos espaços e das pessoas é regra em Edifício Master, e a forma como o documentário se apresenta em quadro revela isso de maneira incontestável: sempre em primeiro plano, os entrevistados têm suas falas expostas em blocos únicos, sem sobressaltos, sem montagem paralela, sem trilha sonora e inserção de imagens de arquivo. Seus discursos são apresentados no mais próximo que o cinema documental pode chegar de um ‘olhar sem julgamento’.” (Pedro Azevedo)

Você pode assistir ao filme no Prime Video.


3. Santiago (2007)


Direção: João Moreira Salles

Santiago foi o mordomo da família de João Moreira Salles, e recebeu o convite do diretor, em 1992, para contar sua história em formato de documentário. Salles, na época, não conseguiu montar o filme a partir do material que havia captado, e anos mais tarde, ao revisitar esse material bruto com os montadores Eduardo Escorel e Lívia Serpa, nasce esse filme, com uma proposta diversa da original. Agora, João Moreira Salles, que estava do outro lado da câmera, também é parte fundamental do filme.

O sujeito autor, o realizador que define o lugar da câmera e o foco de seu olhar, se torna objeto do mesmo olhar. Não se trata de um ator autobiográfico revestido da intenção de desenvolver um espaço subjetivo tão característico da tradição literária que se volta para o Eu, mas de um jogo instaurado entre o personagem que está diante da câmera e aquele que está por trás dela e que transforma essa mesma câmera em um espelho de duas faces, ora vendo-se refletido ora refletindo-se no outro.” (Maria Dora Mourão)

Você pode assistir ao filme no Tamanduá.tv.


2. Jogo de Cena (2007)


Direção: Eduardo Coutinho

Para discutir a questão da encenação no documentário, Coutinho coloca treze mulheres de frente para uma câmera: sete pessoas comuns, três atrizes pouco conhecidas e três atrizes consagradas – Marília Pêra, Fernanda Torres e Andréa Beltrão.

“Jogo de cena satisfaz a boa consciência contemporânea ao dizer que há trabalho e construção na espontaneidade daqueles personagens fantásticos que, nos últimos dez anos, pipocaram pelos filmes de Coutinho. Esse é o núcleo na qual a ética atual do documentário é construída e Coutinho vai bater ponto no quesito, mostrando sua sintonia com a demanda. No estilo documentário que desenvolveu, o momento reflexivo ocorre quando a encenação-direta é desconstruída e sobreposta, numa mistura, a diversas modalidades de encenação-construída.” (Fernão Pessoa Ramos)

Você pode assistir ao filme no Now.


1. Cabra Marcado Para Morrer (1984)


Direção: Eduardo Coutinho

O único primeiro lugar ficou com Cabra Marcado Para Morrer – o único documentário a integrar o top 5 dos melhores filmes brasileiros. Cabra Marcado Para Morrer teve sua produção interrompida em 1964, devido ao golpe militar. 17 anos depois, as filmagens foram retomadas de maneira reinventada. O longa-metragem que inicialmente trataria apenas da vida e morte de João Pedro Teixeira, fundador da Liga Camponesa de Sapé, quando foi retomado incorporou toda sua jornada de produção e as mudanças políticas no Brasil. O filme coroa Coutinho com três aparições no top 5.

Cabra Marcado Para Morrer se constrói através de um constante diálogo entre os seus dois tempos: 1962/64 e 1981/82. No Cabra-60, o cinema pretendia engolir a realidade. (…) Já no Cabra-80, é a realidade que se apresenta para engolir o cinema. (…) Se o Cabra-60 era fruto da vontade de um grupo (o CPC) de expressar a vivência popular, o Cabra-80 é o desejo de um homem (Coutinho) de abrir-se à vivência popular propriamente dita“. (Carlos Alberto Mattos)

Você pode assistir ao filme no Tamanduá.tv.


O top 10 é constituído também por:

  1. Ilhas das Flores (1989), de Jorge Furtado;
  2. Notícias de uma guerra particular (1999), de João Moreira Salles e Kátia Lund;
  3. Ônibus 174 (2002), de José Padilha;
  4. Di (1977), de Glauber Rocha;
  5. Aruanda (1960), de Linduarte Noronha.

No site da ABRACCINE você confere a lista completa com os 100 documentários.

Você já assistiu a algum desses filmes? Tem um preferido? Conta pra gente aqui nos comentários e acompanhe nossas redes – Facebook e Instagram – para não perder nenhum texto sobre cinema.


Referências

Livros:
100 melhores documentários brasileiros, de Paulo Henrique Silva (org)

Elementos de composição do enquadramento

Já tratamos anteriormente dos princípios da organização visual nas artes em dois artigos (leia aqui a primeira parte e a segunda parte) e até mesmo das funções dos enquadramentos no cinema. Mas nesse jogo de significação, quais são os recursos que os cineastas podem utilizar na composição de seus enquadramentos?

Com o apoio dos estudos de Jennifer Van Sijll, no livro Narrativa Cinematográfica, trataremos de cinco recursos a partir de seus exemplos: o direcionamento do olhar, o desequilíbrio, o equilíbrio, a orientação e a proporção.


Direcionamento do olhar

O direcionamento do olhar no cinema, tal qual nas artes visuais, se dá pelo contraste entre áreas principais e áreas secundárias. E para criar essa diferença de dominância entre as áreas, utiliza-se a proximidade ao objeto, sua centralidade, a iluminação. Tudo isso conta para oferecer ao público uma hierarquia dos elementos na imagem e guiar o seu olhar.

Em Cidadão Kane (1941), de Orson Welles, por exemplo, a iluminação da cena a seguir é crucial para estabelecer a dominância entre as áreas do quadro: o que é importante, o que deve ser visto, é iluminado; o que o público não deve ver, fica no escuro.

A expectativa de que ao final da projeção que os jornalistas estão assistindo a tela branca perca sua importância, e agora os jornalistas que estão falando sejam iluminados, tornando-se o centro das atenções, não é correspondida. Ao contrário, Welles mantém a tela branca iluminada, e os personagens ficam na penumbra.

Para Jennifer Van Sijjl, essa inversão é uma pista para o público, de que o que importa ali naquele momento não são os jornalistas, mas todas suas dúvidas e questões sobre Kane. Quando a imagem perde seu caráter didático, o som se potencializa, e o diálogo dos personagens torna-se ainda mais importante.


Equilíbrio e desequilíbrio

Nas artes visuais tratamos do equilíbrio em quatro categorias: o equilíbrio simétrico (formal), o equilíbrio simétrico aproximado, o equilíbrio radial e o equilíbrio assimétrico (informal/oculto). E no cinema, a simetria também pode ser utilizada narrativamente não apenas como um recurso estético.

Em Disco Pigs (2001), de Kristen Sheridan, após o nascimento de um bebê vemos dois berços posicionados lada a lado. Tudo na composição é idêntico, menos o vazio do segundo berço – o que chama a atenção do espectador mais para essa ausência do que para a presença no bebê em quadro.

Mas com a chegada do segundo bebê, o desequilíbrio inicial é “corrigido”, e a simetria é novamente selada com um aperto de mãos entre os dois recém-nascidos.

Esse equilíbrio segue na próxima cena – que em uma elipse temporal, vemos os dois personagens já adultos, mas ainda dividindo a composição da mesma maneira como eram quando bebês. E as mãos dadas na terceira imagem funciona como uma rima visual da cena anterior.


Orientação

Nem sempre teremos uma representação na tela fiel a forma como vemos o mundo. Essa mudança de orientação do ponto de vista do narrador, da câmera, também pode ser utilizada de maneira simbólica na narrativa.

A autora aponta que em Apocalypse Now (1979), dirigido por Francis Ford Coppola, quando somos introduzidos ao enredo a partir do capitão Willard vemos seu rosto de ponta cabeça, sobreposto a imagens da floresta do Vietnã em chamas, o que simbolizaria que tanto o personagem quanto a história a ser contada não são comuns, e para isso exigem um enquadramento incomum.


Proporção

Por fim, outro elemento de composição de significação nos enquadramentos é a proporção. É com ela que podemos determinar visualmente a força e a fraqueza de determinados personagens.

Em Metrópolis (1927), Fritz Lang utiliza esse recurso para criar um contraste entre o poder dos habitantes da cidade e os trabalhadores – os “de cima” e os “de baixo”. Confira a análise de Sijll sobre os dois planos abaixo:

  • Plano 1: “O mundo exterior é o mundo dos edifícios modernos e arrojados que representam a conquista máxima da técnica humana. As descomunais proezas arquitetônicas dominam o cenário e parecem chegar até as nuvens. Nessa metrópole, só a elite vive acima do chão para usufruir seus benefícios“.

  • Plano 2: “Lang compara os maciços arranha-céus aos homens semelhantes a formigas que os constroem. Esses operários desumanizados se arrastam em colunas e são forçados a viver em ‘colônias de formigas’ subterrâneas. Eles são apequenados pelos prédios que constroem e pelas máquinas que os escravizam“.


Referências

Livro:
Narrativa Cinematográfica, de Jennifer Van Sijll

Filmes:
Metrópolis (1927), dirigido por Fritz Lang
Cidadão Kane (1941), dirigido por Orson Welles
Apocalypse Now (1979), dirigido por Francis Ford Coppola
Disco Pigs (2001), dirigido por Kristen Sheridan

O uso da rotoscopia em Zoom

A rotoscopia surge como uma forma de otimizar a produção de animações, fazendo com que suas dimensões ficassem mais reais e seus movimentos mais suaves. Ela tem como referência uma imagem captada em vídeo, que é redesenhada quadro a quadro por um artista, resultando, então, na animação.

O inventor do rotoscópio foi Max Fleischer, em 1915. Na imagem abaixo, você confere o funcionamento do aparato utilizado na época para a criação de animações com rotoscopia.

Mas a técnica não foi utilizada somente para transformar imagens live-action em animações. Os Pássaros (1963) de Alfred Hitchcok utilizou rotoscopia para a inserção dos pássaros em determinadas sequências, e levou três meses para dois artistas concluírem o trabalho.

Star Wars também utilizou a técnica para substituir os sabres de luz nas cenas de luta e ressaltar seu brilho, que foram contornados frame a frame.

No Brasil, Zoom (2015), dirigido por Pedro Morelli, utilizou a técnica em uma de suas três narrativas simultâneas do enredo. Na história, Emma é uma quadrinista que precisa ganhar dinheiro, e é ela quem ilustra, dentro da diegese, Edward (Gael García Bernal), um diretor de cinema que é apresentado na tela em rotoscopia.

As gravações de Edward aconteceram em 30 cenários diferentes, dentro de um estúdio. E engana-se quem pensa que as gravações em live-action do personagem são iguais a qualquer outro filme. Tudo precisava ser pensado previamente, antecipando possíveis dificuldades que os ilustradores e a equipe de animação teriam com as imagens, com o cenário, com o figurino.

Quanto a composição dos traços, o diretor reforça que as escolhas que ditavam a composição dos desenhos eram baseadas no próprio roteiro. Como as ilustrações dentro da narrativa foram criadas por Emma, toda a estética ao redor de Edward deveria partir da personagem – como o uso das cores, por exemplo. Para o diretor, nenhuma escolha era gratuita: “isso (que vemos) é o que a nossa personagem que está desenhando faria“.

“Não é pra ele parecer um filme. É pra parecer um quadrinho sendo feito por uma personagem” Marcelo Souza – Supervisor de VFX

A direção de fotografia também teve que se adaptar. Em diálogo com a pós-produção, eles optaram pelo uso de uma luz contrastada – de áreas bem iluminadas e de outras mais escuras – que se aproximava mais da linguagem das graphic novels. Os enquadramentos do filme também simulavam os enquadramentos que encontramos nos quadrinhos, exatamente para recriar a produção dessa personagem.

E o uso da rotoscopia, que tende a manter uma certa fidelidade dos movimentos, estende essa fidelidade para a atuação dos profissionais em cena em detalhes mínimos, como a respiração dos personagens. O que dá segurança em colocar um ator como Gael García Bernal no filme para ser visto apenas pelas lentes dessa técnica.

As cenas em rotoscopia no filme utilizaram a cadência de 12 frames por segundo, e tiveram cerca de 30 minutos de tela. O que resulta em mais de 20 mil frames trabalhados um a um. A finalização do filme aconteceu em duas frentes, uma responsável pela finalização geral do longa e a outra dedicada apenas aos desenhos. Foram cerca de 70 profissionais envolvidos apenas nessa etapa.

Ficou curioso com o resultado? Você pode assistir ao filme no GloboPlay. E não esquece de contar pra gente em nossas redes – Facebook e Instagram – o que achou do filme e do nosso artigo.

36 filmes para assistir online e de graça na Mostra Internacional de Cinema

De 22 de outubro a 4 de novembro acontecerá a 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, uma das maiores e mais respeitadas mostras de cinema no Brasil. Esse ano o evento acontecerá predominantemente de maneira virtual, devido à pandemia do coronavírus.

E se nessa edição perdemos a experiência imersiva da sala de cinema, por outro lado, ganhamos no alcance: além das sessões acontecerem de maneira virtual, permitindo que pessoas de todo o Brasil possam participar do evento, dos 198 títulos de 71 países que integram o festival, 31 serão exibidos gratuitamente.

Mas antes de partir para os filmes que fazem parte da 44ª edição da Mostra, o site do Itaú Cultural exibirá cinco longas-metragens nacionais premiados em edições anteriores do evento. São eles:

  • Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé;
  • Mulher do Pai, de Cristiane Oliveira;
  • Pitanga, de Beto Brant, Camila Pitanga;
  • Tudo é Projeto, de Joana Mendes da Rocha, Patricia Rubano;
  • Tudo Que Aprendemos Juntos, de Sérgio Machado.

Os filmes estarão disponíveis entre os dias 21 de outubro e 04 de novembro. Para mais informações, acesse: https://www.itaucultural.org.br/


Os filmes gratuitos da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo serão exibidos em diferentes plataformas online. Abaixo você confere a lista de títulos que estarão disponíveis no SP Cine Play:

  • A Arte de Derrubar, de Aslaug Aarsæther e Gunnbjörg Gunnarsdóttir;
  • A Vida na Estrada, de Sidra Rezwan, Salva Soleiman Sedo, Ekhlas Heydar Samubud, Adnan Faroq;
  • Candango: Memórias do Festival, de Lino Meireles;
  • Colômbia Era Nossa, de Jenni Kivistö, Jussi Rastas;
  • DAU. Degeneração, de Ilya Khrzhanovskiy, Ilya Permyakov;
  • Eeb Allay Ooo!, de Prateek Vats;
  • Entre o Céu e a Terra, de Najwa Najjar;
  • Gatilho, de Pavel Ganin;
  • La Planta, de Beto Brant;
  • O Paraíso da Serpente, de Bernardo Arellano;
  • O Pequeno Refugiado, de Batin Ghobadi;
  • Pilatos, de Linda Dombrovszky;
  • Poppie Nongena, de Christiaan Olwagen;
  • Samba de Santo – Resistência Afro-Baiana, de Betão Aguiar;
  • Solo, de Sevgi Hirschhäuser.

Já na plataforma do Sesc Digital, você pode assistir aos seguintes filmes:

  • 1986, de Lothar Herzog;
  • A Herdade, de Tiago Guedes;
  • Cracolândia, de Edu Felistoque;
  • Guerra, de José Oliveira, Marta Ramos;
  • Ladrões de Cinema, de Fernando Coni Campos;
  • Luz Acesa, de Guilherme Coelho;
  • Nimby, de Teemu Nikki;
  • O Caminho Para Moscou, de Micha Lewinsky;
  • O Mágico e o Delegado, de Fernando Coni Campos;
  • Sem Cabeça, de Kaveh Sajjadi Hosseini;
  • Sem Som, de Behrang Dezfoulizadeh;
  • Sobradinho, de Cláudio Marques e Marília Hughes;
  • Uivos São Ouvidos, de Julio Hernandez Cordon;
  • Vencidos da Vida, de Rodrigo Areias;
  • Viagem ao Fim do Mundo, de Fernando Coni Campos;
  • Winona, de Alexandros Voulgaris.

Além desses 31 filmes, para assistir aos títulos selecionados para a Perspectiva Internacional, Competição Novos Diretores e Mostra Brasil, o espectador deverá desembolsar seis reais por visualização, acessando a plataforma Mostra Play.

E mesmo sendo um festival que acontecerá predominantemente online, os filmes possuem uma limitação de visualização. Então, é bom correr para garantir o seu ingresso – inclusive dos filmes gratuitos. As vendas começam na meia-noite do dia 21 para o dia 22, e você pode conferir a sinopse, trailer e mais informações sobre os filmes e sobre o festival no site da 44ª Mostra Internacional de Cinema.

Os bastidores de O Grande Ditador

O Grande Ditador estreou no dia 15 de outubro de 1940 em Nova York e foi o primeiro filme falado de Charles Chaplin. O diretor relutou por anos antes de incorporar a fala sincronizada em suas produções. O Cantor de Jazz, por exemplo, é considerado o primeiro longa com falas e canto sincronizados, e estreou 13 anos antes, em 1927.

Antes da produção de seu próximo filme, Chaplin ainda mantinha suas dúvidas: “E mais uma vez eu me fazia a mesma pergunta deprimente: deveria fazer mais um filme mudo? Eu pensara em vozes possíveis para Carlitos, se ele deveria falar em monossílabos ou só resmungar. Tudo inútil. Se eu falasse, me tornaria um comediante qualquer“.

A ideia de Chaplin interpretar dois personagens – Carlitos e Hitler – foi de Alexander Korda, um produtor e cineasta britânico amigo de Chaplin. O personagem do vagabundo é um barbeiro judeu que havia retornado da primeira guerra com amnésia. Já seu sósia seria o ditador de Tomânia, Adnoid Hynkel – uma clara alusão a Hitler.

O roteiro de 300 páginas foi escrito em 1937 e 1938, período em que Hitler ainda era considerado o grande herói da Alemanha, por ter reestabelecido sua economia e “salvado” o país do comunismo.

Para mim, a coisa mais engraçada do mundo é ridicularizar impostores e os convencidos em altas posições. Quanto maior o impostor a enfrentar, melhores as chances de fazer um filme engraçado. E seria difícil encontrar impostor maior do que Hitler (Charles Chaplin)

A imprensa da época estava receosa com o lançamento do filme, que tinha grandes chances de ser proibido em alguns países. Porém, mesmo com a possibilidade do prejuízo causado pelas restrições na distribuição, Chaplin apostou no filme e financiou sua produção sozinho, com 2 milhões de dólares.

O cineasta Costa-Gavras destaca como o roteiro foi visionário em diversos aspectos. O filme abordou os campos de concentração e até mesmo o Zyklon B, pesticida utilizado nas câmaras de gás para o extermínio em massa dos prisioneiros. Foram situações que aconteceram simultaneamente a escrita do roteiro, mas que não eram necessariamente de conhecimento público.

Ainda no período de produção de O Grande Ditador, outros filmes de Chaplin foram banidos pelos regimes autoritários da Alemanha e Itália, e a propaganda nazista fez questão de disseminar que Chaplin era judeu – o que era mentira. No mesmo período, o diretor fez inúmeras doações financeiras a grupos que ajudavam judeus alemães a escapar da Alemanha nazista.

Não sou judeu. Não tenho uma gota de sangue judeu. Nunca protestei, quando disseram que eu era judeu porque eu teria orgulho de ser (Charles Chaplin)

Parte do filme acontece em um gueto judeu, humanizando os personagens que sofrem com o antissemitismo crescente no país. Hannah, interpretada por Paulette Goddard, que forma o par romântico com o barbeiro, é, de todo o filme, a personagem mais combatente contra as violências sofridas no bairro. É ela quem enfrenta os militares, seja fisicamente ou no diálogo. E após o icônico discurso do barbeiro, é de Hanna o plano final do filme. Sua luta pela “terra prometida”, um lugar em que poderia encontrar paz, parece se concretizar em seu sorriso nos segundos finais da projeção.

Confira abaixo o filme na íntegra:


Referências

Filmes:
O Grande Ditador (1940), dirigido por Charles Chaplin
Chaplin Today: O Grande Ditador (2003), produzido por Serge Toubiana

Como eles fizeram um filme sobre o Facebook?

Dez anos após o lançamento de The Social Network (2010), as redes sociais ainda são pauta do debate público. Agora, questionadas sobre o impacto que elas têm causado na vida dos usuários e até mesmo na democracia. The Social Dilemma (2020), recém estreado na Netflix, foi um dos responsáveis por reaquecer o assunto. No último mês, pesquisas de “desativar/excluir o Facebook” cresceram em 250% no Google.

Apesar disso, o Facebook se mantém no topo do ranking de redes sociais mais utilizadas, com mais de 2 bilhões de usuários ativos. E em 2010, a história de sua criação inspirou o roteirista Aaron Sorkin e o diretor David Fincher a transpor para as telas o início da carreira de sucesso de Mark Zuckerberg.

O filme foi indicado a 8 Oscar, vencendo nas categorias de melhor roteiro adaptado, melhor trilha sonora e melhor montagem. Mas, afinal, como eles fizeram um filme sobre o Facebook?

A produção teve três semanas de ensaios. Nessas reuniões com o elenco, o roteiro foi revisado minuciosamente, recebendo inclusive contribuições dos atores. Para Jesse Eisenberg, que interpreta Mark Zuckerberg, os ensaios foram importantes para que ele pudesse entender o que havia por trás das palavras do roteiro, quais eram as reais motivações de David Fincher e de Aaron Sorkin com aquele texto, e como isso poderia ajudá-lo a compor seu personagem.

Ainda nos ensaios, Jesse e Andrew Garfield (Eduardo Saverin) passavam horas conversando como se fossem os personagens, sem seguir o roteiro. Todo esse preparo do elenco ainda na pré-produção, ajuda a compor relações mais críveis e reais, já que parte do elenco nunca haviam trabalhado juntos, e nas telas precisam aparentar uma forte amizade.

Após os ensaios, todo o elenco passou pelo teste de figurino e maquiagem em frente às câmeras. Nessa etapa, a produção pode ter uma primeira materialização visual daqueles personagens, com suas principais roupas e acessórios. A colorização desse material primário levou em conta, inclusive, a concepção de Fincher com relação ao tratamento de cor do material final. Afinal, de acordo com o tratamento final da imagem, cores e tons podem variar – e muito – do objeto original.

As filmagens foram divididas entre Boston e Los Angeles, por uma única razão: as locações. Como parte do longa se passa em Harvard, foi mais viável para a produção realizar as gravações na própria universidade do que reconstruir parte dela em estúdio ou apostar no chroma key. O rio Charles River de Boston também foi utilizado nas gravações das cenas dos treinos de remo.

Um detalhe foi que a produção ultrapassou o limite de diárias que foram combinadas com a universidade, e realizou algumas gravações clandestinas. Além do risco de terem que interromper as filmagens caso fossem descobertos, nessas filmagens a equipe não contava com o acompanhamento dos seguranças do local – o que representava um alto risco, levando em conta o preço dos equipamentos utilizados nas gravações.

E apesar de ser um filme naturalista, com um registro direto dos personagens, a pós-produção também teve muito trabalho, principalmente nas cenas dos gêmeos Winklevoss. Apesar de Cameron e Tyler Winklevoss serem interpretados por Armie Hammer e Josh Pence, Josh teve seu rosto substituído pelo de Hammer com a ajuda da equipe de efeitos especiais. Mas essa alteração facial não diminuiu em nada o trabalho dos dois atores, que se prepararam por dez meses com um professor de atuação que desenvolveu em ambos padrões de movimentação e de fala idênticos, semelhantes aos que gêmeos reais possuem.

O processo de substituição do rosto de Josh pelo de Armie aconteceu em quatro etapas: rastrear o rosto do dublê, analisar os padrões de iluminação, reproduzir o mesmo padrão de luz em estúdio com um mecanismo de iluminação controlado por um computador e, por fim, projetar o novo rosto no material original.

Em determinadas cenas, Armie Hammer trabalhava em dobro: a mesma ação era repetida duas vezes, uma com ele no papel de Cameron e outra no papel de Tyler – e na pós-produção, os takes eram mesclados.

E se David Fincher é conhecido na indústria por repetir exaustivamente os mesmos takes até encontrar o perfeito, com esse filme não foi diferente. A cena de abertura, do diálogo de Mark com Erica, por exemplo, teve 99 takes. E, conhecendo o diretor, para a icônica cena em que Eduardo destrói o computador de Mark, a equipe preparou com antecedência dezenas de laptops pra serem quebrados.


Referências

Filmes:
A Rede Social (2010), dirigido por David Fincher
How Did They Ever Make a Movie of Facebook? (2011), dirigido por David Prior

Notícias:
Buscas por “excluir Facebook” crescem 250% após filme “O Dilema das Redes”

Novas regras do Oscar priorizam representatividade e inclusão

Após anos de pedidos por mais diversidade na Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelos Oscar, foram anunciadas novas regras que impactam a premiação a partir de 2022. O anúncio aconteceu no dia 8 de setembro, em uma publicação oficial no site do evento.

No meio do ano, também visando uma maior diversidade, a Academia já havia anunciado a inclusão de 819 novos membros. Desse número, 368 são mulheres, 294 são integrantes de minorias étnicas ou raciais e quase metade é composta por estrangeiros, como Mariana Oliva e Tiago Pavan, os brasileiros produtores de Democracia em Vertigem. A partir dessa inclusão, dos mais de 9 mil membros atuais da Academia, 33% são mulheres e 19% são membros não-brancos.

Agora, propondo uma maior visibilidade de pessoas não-brancas, mulheres, LGBTs, latinos e pessoas com deficiência nas produções que concorrem à estatueta de Melhor Filme, o Oscar anunciou quatro padrões que devem nortear as produções a partir de agora, na seleção de trabalhadores que atuarão na frente e atrás das câmeras. Quem quiser concorrer na categoria de Melhor Filme, deve atender a pelo menos duas dessas exigências:


Padrão A: representatividade de temas e narrativas na tela (1 de 3 critérios necessários)

  • A1) Pelo menos um dos atores principais ou coadjuvantes de destaque deve pertencer a uma etnia ou grupo racial pouco representado (asiático, latino/hispânico, negro, nativo-americano, norte-africano, nativo havaiano)
  • A2) Pelo menos 30% de todo o elenco em papéis secundários ou menores devem pertencer a dois grupos pouco representados (mulheres, grupos raciais ou étnicos, LGBTQI+, pessoas com deficiência física ou cognitiva)
  • A3) A história principal, tema ou narrativa deve ser centrada em um grupo pouco representado

Padrão B: Liderança criativa e equipe do projeto (1 de 3 critérios necessários)

  • B1) Pelo menos dois membros da liderança criativa e chefes de departamento – diretor de elenco, cinematógrafo, compositor, figurinista, diretor, editor, cabelereiro, maquiador, produtor, designer de produção, decorador de set, editor de som, supervisor de efeitos visuais, roteirista – devem pertencer a um grupo pouco representado e pelo menos uma posição deve pertencer a uma etnia ou grupo racial pouco representado.
  • B2) Pelo menos seis membros da equipe (com exceção de Produtor Associado) devem pertencer a um grupo pouco representado
  • B3) Pelo menos 30% da equipe técnica inteira deve pertencer a um grupo pouco representado

Padrão C: Acesso à Indústria e criação de oportunidades (os dois critérios são necessários)

  • C1) O produtor ou distribuidor do filme deve financiar aprendizado/estágio remunerado para pessoas de grupos pouco representados; grandes estúdios devem ter presença substancial de aprendizes/estagiários assalariados de grupos pouco representados na maior parte dos departamentos (desenvolvimento/pré-produção, produção presencial, pós-produção, música, efeitos visuais, aquisições, administração, distribuição, marketing e publicidade); estúdios pequenos e independentes devem ter pelo menos dois aprendizes/estagiários assalariados de grupos pouco representados (pelo menos um de um grupo étnico ou racial pouco representado) em pelo menos um dos departamentos
  • C2) A companhia responsável pela produção, distribuição e financiamento do filme deve oferecer oportunidades de emprego ou capacitação para pessoas de grupos pouco representados.

Padrão D: Desenvolvimento com o público

  • D1) O estúdio tem executivos sênior de grupos pouco representados (pelo menos um de um grupo étnico ou racial pouco representado) em suas equipes de marketing, publicidade e distribuição.

Para o crítico Pablo Villaça, essas medidas indicam um início para maior representatividade de minorias na premiação: “Estas regras vão gerar o xorôrô habitual por parte dos suspeitos habituais. E, claro, num mundo ideal não deveriam existir. Mas não estamos num mundo ideal e a maior representatividade de minorias tem que começar de algum modo – se não naturalmente, então impulsionada por regras. É claro que a Academia não pode obrigar nenhum produtor a seguir estas regras; no entanto, se ele quiser concorrer a um Oscar, deverá seguir os critérios da organização que o distribui. Certíssimo.“.


Referências

Academy establishes representation and inclusion standards for Oscars® eligibility
Academia cria regras de representatividade para indicados ao Oscar
Por mais diversidade no Oscar, Academia anuncia 819 novos membros, incluindo brasileiros