Quanto tempo seu roteiro tem?

Você tem uma história e um roteiro. Mas sabe quanto tempo de filme ele dá?

Pensar em histórias não é uma tarefa difícil para quem já tem o costume de escrever: normalmente você já tem vários storylines em um bloco de notas físico ou digital. Colocá-la no papel costuma ser um pouco mais difícil, mas se você estabelece uma certa rotina e tem as ferramentas certas, o roteiro sai redondinho. Mas quanto tempo aquela história rende costuma confundir um pouco os roteiristas de plantão — diretores e produtores estão incluidos no balaio, viu?

Tem fórmula para calcular?

A resposta definitiva é não. O que há é um consenso: uma página equivale a um minuto.

O certo mesmo a ser dito é que depende muito do que se está escrevendo, como, pra quem e em que plataforma. Assim como nenhum roteiro é igual ao outro — ou pelo menos não deveria ser —, os tempos de cada um deles também são diferentes e é preciso ter isso bem claro.

É importante ter em mente também que cada roteirista escreve de uma forma e que cada roteiro, como peça escrita, é único em sua forma e conteúdo. Como se fosse um texto em prosa no formato mais clássico possível, a forma como o roteirista se coloca, como descreve as cenas e o formato final das falas, todos esses fatores são muito próprios da escrita de cada roteirista e também influenciam no tempo final do roteiro.

Dá pra levar muitos roteiros com essa lógica de uma página por minuto? Sim. Às vezes, eles vão render mais, às vezes um pouco menos. No final, pode dar certo. Mas quando se trabalha com prazos e orçamentos essa folga começa a ficar um pouco menor, e ser mais preciso pode ser de uma ajuda incrível.

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Orçamento

Por mais romântico que seja o ofício de quem escreve roteiros — sempre pensando e, por que não, imergindo nas suas próprias histórias — tempo é dinheiro. Esse ditado é muito válido dentro do audiovisual, já que para cada minuto ou hora a mais de locação, cada minuto de equipe que fica no set, de aluguel de equipamento, mais dinheiro é gasto e o seu orçamento final costuma ficar mais caro.

Diferente de um livro, no qual os custos giram em torno da diagramação, impressão e distribuição, o filme ou peça que você está trabalhando envolve processos muito maiores: o roteiro é o primeiro passo de um filme e qualquer minuto, qualquer cena, qual extensão que ele tenha, gera uma necessidade por mais dinheiro para que ele se torne realizável. Via de regra não é o orçamento que se adequa ao roteiro, mas o roteiro que se adequa ao orçamento — e quebrar essa regra pode ser bem ruim.

Então, um roteiro consciente é um roteiro que leva em consideração o orçamento que cobre todos os processos necessários para execução daquela história. Trabalhar com isso como norte é sempre um ótimo caminho para uma produção bem-sucedida.

Alinhar para estipular

Segundo John August, roteirista do filme A Fantástica Fábrica de Chocolate (2005), um dos segredos para chegar de maneira mais precisa em um tempo de filme a partir do seu roteiro está no alinhamento prévio desse com a direção e com o estilo que ela quer empregar à peça — um diálogo que é muito importante para confecção do projeto.

Isso porque quando a peça é discutida a imagem que tanto a equipe de roteiro e a direção têm em mente pode diferir muito, e um alinhamento pode ajudar a estabelecer uma mesma imagem que, uma vez estabelecida, torna a tarefa de estimar um tempo muito mais fácil.

Isto é, é durante essa conversa com a direção que o número de páginas e o tempo de um roteiro pode ser definido com melhor precisão.

Esse trabalho de estipular o tempo de um roteiro é feito normalmente por um supervisor ou supervisora de roteiro que lê e cronometra seu tempo. Se seu projeto não tem um e cabe a você a tarefa, conversar com a direção ainda é uma das melhores dicas.

Parece contraintuitivo, mas se pensar bem não é: se você seguir mais ou menos os passos de Storyline + Argumento + Roteiro, com os dois primeiros passos você já é capaz também de dizer o que vai ser trabalhado e número aproximado de cenas que o filme tem. Economiza mais tempo esse diálogo de partes do que reescrever várias vezes o roteiro porque seu limite de páginas não era tão longo ou porque o tempo não bate.

Leia seu roteiro em voz alta

Essa é mais uma dica de John August e por mais cômica que essa ideia possa parecer, ler seu roteiro e suas falas em voz alta e pensar nos tempos da atuação da cena que está descrevendo ajuda bastante. Faça essa leitura cronometrando o seu tempo como faz o supervisor de roteiro e você já vai adiantar muito o seu trabalho tendo a devida proporção que a história está tomando em relação à sua extensão.

Lembre-se:

Como roteirista, o filme acontece primeiro na sua cabeça e externar isso na leitura em voz alta pode ser a chave perfeita para calcular o tempo do seu roteiro.

Caso os diálogos se intercalem com muita frequência, por exemplo, chame alguém para ler com você e veja se as falas se encaixam, verifique se o tempo que elas tomam para ocorrer bate com o tempo que você tem mente ou que já cronometrou — isso serve até para a regra de uma página por minuto de filme.

Cuidado com o número de páginas

Um roteiro muito curto pode não ser adequado para contar a sua história por completo. Por outro lado, um roteiro muito longo se torna pouco executável, além de afastar as oportunidades de produção ou de investimento por parte de empresas e ou grandes produtoras. Por isso a cautela na escrita é sempre muito importante.

Se você segue a lógica de um minuto por página, um filme de duas horas tem 120 páginas: um formato “padrão” em Hollywood. Se ele tem 3h20 como Vingadores: Ultimato (2019), por exemplo, são 200 páginas. Um filme tão longo como E o Vento Levou beiraria as 250 páginas — algo que encontra menos espaço de mercado e público hoje em dia. Por isso que uma conversa com a direção pode ser tão útil ao projeto.

Por fim, pra quem é roteirista e gosta do que faz, converse, debata, escreva e rescreva sua história, além de trabalhar com tudo isso em mente para que a sua limitação de tempo não seja uma limitação da sua criatividade.

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Escritor e redator, formado em Rádio e Televisão pelo Complexo FIAM-FAAM, apaixonado por literatura e observador míope do espaço sideral.