Os 5 melhores documentários brasileiros, segundo a crítica

Nós já apresentamos a lista dos 5 melhores filmes brasileiros, segundo a ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Mas como a lista era composta predominantemente por produções de ficção, trazemos hoje um top 5 dos melhores documentários brasileiros, também ranqueados pela ABRACCINE.


5. Serras da Desordem (2006)


Direção: Andrea Tonacci

O quinto lugar da lista aborda a questão indígena no Brasil. No filme, o diretor Andrea Tonacci se vale de uma tradição do documentário etnográfico, ensaístico, utiliza imagens de arquivo e telejornais, mas não abre mão dos recursos de ficção, ao propor que os próprios personagens façam a reencenação de sua própria história, como o índio Carapiru.

Carapiru é, simultaneamente, sujeito e objeto. Sujeito de sua fabulosa odisseia, que inclui o reencontro casual com o filho, Txiramukum, que também sobreviveu ao massacre e, por uma coincidência de tragédia grega, foi destacado pela Funai para ir a Brasília comunicar-se com ele em sua língua e investigar sua origem. E objeto dos vários olhares que reconstroem essa trajetória: das tevês e jornais, dos indigenistas, dos camponeses que o acolheram e, por fim, do olhar abrangente, lúcido, dilacerado e dilacerante de Andrea Tonacci. Se há um filme que expõe em carne viva a dificuldade de falar sobre a trágica condição do índio – essa ‘outra humanidade’ esmagada por uma desordem humana -, esse filme é Serras da desordem.” (José Geraldo Couto)

Você pode assistir ao filme no Tamanduá.tv ou no canal do Youtube da Funai.


4. Edifício Master (2002)


Direção: Eduardo Coutinho

A primeira aparição de Eduardo Coutinho na lista é graças a Edifício Master, um documentário ambientado nesse prédio de 273 apartamentos, localizado na praia de Copacabana, onde moram mais de 500 pessoas. De toda essa gente, Coutinho nos apresenta a história de 37 moradores, que abordam temas diversos.

A ausência de preconceitos acerca dos espaços e das pessoas é regra em Edifício Master, e a forma como o documentário se apresenta em quadro revela isso de maneira incontestável: sempre em primeiro plano, os entrevistados têm suas falas expostas em blocos únicos, sem sobressaltos, sem montagem paralela, sem trilha sonora e inserção de imagens de arquivo. Seus discursos são apresentados no mais próximo que o cinema documental pode chegar de um ‘olhar sem julgamento’.” (Pedro Azevedo)

Você pode assistir ao filme no Prime Video.


3. Santiago (2007)


Direção: João Moreira Salles

Santiago foi o mordomo da família de João Moreira Salles, e recebeu o convite do diretor, em 1992, para contar sua história em formato de documentário. Salles, na época, não conseguiu montar o filme a partir do material que havia captado, e anos mais tarde, ao revisitar esse material bruto com os montadores Eduardo Escorel e Lívia Serpa, nasce esse filme, com uma proposta diversa da original. Agora, João Moreira Salles, que estava do outro lado da câmera, também é parte fundamental do filme.

O sujeito autor, o realizador que define o lugar da câmera e o foco de seu olhar, se torna objeto do mesmo olhar. Não se trata de um ator autobiográfico revestido da intenção de desenvolver um espaço subjetivo tão característico da tradição literária que se volta para o Eu, mas de um jogo instaurado entre o personagem que está diante da câmera e aquele que está por trás dela e que transforma essa mesma câmera em um espelho de duas faces, ora vendo-se refletido ora refletindo-se no outro.” (Maria Dora Mourão)

Você pode assistir ao filme no Tamanduá.tv.


2. Jogo de Cena (2007)


Direção: Eduardo Coutinho

Para discutir a questão da encenação no documentário, Coutinho coloca treze mulheres de frente para uma câmera: sete pessoas comuns, três atrizes pouco conhecidas e três atrizes consagradas – Marília Pêra, Fernanda Torres e Andréa Beltrão.

“Jogo de cena satisfaz a boa consciência contemporânea ao dizer que há trabalho e construção na espontaneidade daqueles personagens fantásticos que, nos últimos dez anos, pipocaram pelos filmes de Coutinho. Esse é o núcleo na qual a ética atual do documentário é construída e Coutinho vai bater ponto no quesito, mostrando sua sintonia com a demanda. No estilo documentário que desenvolveu, o momento reflexivo ocorre quando a encenação-direta é desconstruída e sobreposta, numa mistura, a diversas modalidades de encenação-construída.” (Fernão Pessoa Ramos)

Você pode assistir ao filme no Now.


1. Cabra Marcado Para Morrer (1984)


Direção: Eduardo Coutinho

O único primeiro lugar ficou com Cabra Marcado Para Morrer – o único documentário a integrar o top 5 dos melhores filmes brasileiros. Cabra Marcado Para Morrer teve sua produção interrompida em 1964, devido ao golpe militar. 17 anos depois, as filmagens foram retomadas de maneira reinventada. O longa-metragem que inicialmente trataria apenas da vida e morte de João Pedro Teixeira, fundador da Liga Camponesa de Sapé, quando foi retomado incorporou toda sua jornada de produção e as mudanças políticas no Brasil. O filme coroa Coutinho com três aparições no top 5.

Cabra Marcado Para Morrer se constrói através de um constante diálogo entre os seus dois tempos: 1962/64 e 1981/82. No Cabra-60, o cinema pretendia engolir a realidade. (…) Já no Cabra-80, é a realidade que se apresenta para engolir o cinema. (…) Se o Cabra-60 era fruto da vontade de um grupo (o CPC) de expressar a vivência popular, o Cabra-80 é o desejo de um homem (Coutinho) de abrir-se à vivência popular propriamente dita“. (Carlos Alberto Mattos)

Você pode assistir ao filme no Tamanduá.tv.


O top 10 é constituído também por:

  1. Ilhas das Flores (1989), de Jorge Furtado;
  2. Notícias de uma guerra particular (1999), de João Moreira Salles e Kátia Lund;
  3. Ônibus 174 (2002), de José Padilha;
  4. Di (1977), de Glauber Rocha;
  5. Aruanda (1960), de Linduarte Noronha.

No site da ABRACCINE você confere a lista completa com os 100 documentários.

Você já assistiu a algum desses filmes? Tem um preferido? Conta pra gente aqui nos comentários e acompanhe nossas redes – Facebook e Instagram – para não perder nenhum texto sobre cinema.


Referências

Livros:
100 melhores documentários brasileiros, de Paulo Henrique Silva (org)

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.