Dicas para definir o valor de seu trabalho audiovisual

Definir um valor a seu trabalho é uma tarefa muito complexa, e mesmo profissionais com anos de experiência têm dificuldade para defini-lo. É muito comum se auto desvalorizar, com medo de perder aquele job legal, ou criar grandes expectativas de salários altos e se frustar ao procurar por vagas de trabalho. Provavelmente, você já passou por uma situação de aflição, com medo que o cliente não vá aprovar seu orçamento, ou decepcionado ao saber que podia ter cobrado muito mais – quando o cliente aprovou o seu valor instantaneamente, sem nem ponderar.

Mas então, como definir o valor de seu trabalho, para que ele seja justo para você, seu cliente e o mercado de trabalho em geral?

No meu dia a dia, quando vou aceitar uma oferta de emprego fixo, ou definir o valor a ser cobrado em um job freelancer, sigo alguns indicadores importantes, como o número de horas trabalhadas, quantos dias na semana, importância do job para o cliente e minha responsabilidade dentro do projeto. Além disso, quando você for analisar esses indicadores, deve também entender sua realidade como profissional, qual seu nível de desenvolvimento, concorrência e pisos salariais em seu local de atuação. Somente entendendo sobre você mesmo como profissional, e a realidade do trabalho, é possível chegar a um valor coerente.

Seu perfil profissional

Comece fazendo uma análise crítica sobre você e sua jornada profissional. Imagine-se como seu possível empregador e analise quais são seus pontos positivos, o que você tem a oferecer e o que ainda está faltando para se tornar um profissional completo.

Quanto mais avançado seu nível de estudos, competências e responsabilidades, maior será seu preço. Leve em consideração que toda a jornada para chegar aonde você está teve um custo. O tempo de trabalho e suas experiências vividas também são considerações importantes para chegar ao um valor, pois garantem a seu cliente que você tem a competência e experiência para realizar aquele serviço, e que já passou por dificuldades e potenciais problemas e sabe como superá-los.

Da mesma forma, se você está iniciando na carreira, ainda não tem a agilidade e autonomia para trabalhos que necessitam de maior responsabilidade. O cliente estará fazendo uma aposta em você, trocando a certeza de um profissional experiente, por um valor um pouco menor de mão de obra, que, claro, com o incentivo correto também poderá realizar um trabalho incrível – e ainda trazer algo inovador de uma mente sem os vícios adquiridos após um longo tempo realizando o mesmo serviço.

O tipo de profissional que você se definir influenciará diretamente nos tipos de cliente e trabalhos que irá procurar. Poderá aceitar grandes responsabilidades e dificuldades de um vaga sênior, ou iniciar sua jornada com pequenos jobs. É um longo caminho até a maturidade profissional e nessa jornada seu valor irá progredindo junto com o seu reconhecimento no mercado, com o leque de contatos, cliente e networking que criará a cada novo serviço.

É valido reconhecer quando um trabalho excede seu nível de conhecimento e ter uma conversa franca com seu cliente, para discutir se realmente é o profissional certo para a vaga. Da mesma maneira que é importante o profissional mais reconhecido saber dispensar os trabalhos que não são compatíveis com seu perfil, que tem orçamentos inferiores ao seu valor hora ideal e que poderiam estar ajudando a formar carreira dos novos profissionais. É necessário muita maturidade para abrir mão de um job e indicá-lo a outro profissional, mas, para quem tem um nível de reconhecimento no mercado, é mais lucrativo manter a agenda livre do que aceitar um job sem potencial.

Concorrência em seu mercado

Mas não adianta apenas idealizar quem você é ou gostaria de ser profissionalmente. Você tem que conhecer o mercado de trabalho que está inserido e como você se encaixa nele. Você só poderá garantir um valor hora de trabalho compatível com seu interesse se houver vagas em potencial para isso.

O avanço de plataformas online com ferramentas de marketing baseadas em vídeo possibilitou o surgimento de diversas novas oportunidades de trabalho no setor audiovisual. Hoje, além de trabalhos com cinema, que são na maioria subsidiados por editais públicos, de trabalhos em emissoras de televisão e empresas focadas em eventos sociais, há também um grande leque de oportunidades para trabalhar autonomamente, ou até mesmo em agências e produtoras com foco em criação de conteúdo publicitário para web. Junto a essa abertura de mercado, com novas vagas e oportunidades, surgiram novos tipos de clientes, que agora tem a possibilidade e necessidade de criar conteúdo para autopromoção – algo que antes só cabia em grandes orçamentos compatíveis com o valor de mídia de televisão, mas que agora pode ser distribuído até de graça via mídias sociais. Essa urgência para estar nessas novas mídias faz com que empresas procurem esse serviço mesmo sem ter um orçamento adequado, o famoso “preciso do serviço, só não tenho verba disponível”.

Consequentemente, isso cria a ilusão de que o mercado está desaquecido, desvalorizado e que os trabalhos de vídeo estão cada vez mais baratos. Isso não deixa de ser verdade. Há cada vez mais empresas procurando por serviços baratos e profissionais oferecendo esses serviços. Mas há também diversas vagas para profissionais qualificados.

Imagine assim: a sapataria da esquina de sua casa pode precisar de um vídeo para se promover em algum página de negócios locais. Ao mesmo tempo, a NIKE precisa de um conteúdo para o lançamento de um novo produto. Esses dois clientes existem, possuem valores de investimento diferentes e, também, expectativas de retorno diferentes.

Mas e o tipo de trabalho que você exerce? E o mercado que está inserido? Como é a sua realidade? Há vagas em agências e produtoras sérias? Existe clientes grandes que precisam de filmmakers qualificados? Ou na sua cidade há apenas oportunidades pequenas?
Essas respostas irão moldar o tipo de investimento que você deve fazer, como e qual cliente abordar, ou até mesmo se você não poderia mudar para outro mercado de trabalho.

Pisos e sindicatos

Como há um grande contraste entre os diversos tipos de trabalhos e clientes, vamos analisar a variação de salários sobre algumas perspectivas diferentes:

Edição de vídeo:

De acordo com o SINE, site nacional de empregos, o piso médio para editor de VT está entre R$ 1369.04 e R$ 3448.02, dependendo do porte da empresa contratante e seu nível de conhecimento.

No site de vagas LoveMondays, os salários oferecidos por grandes empresas pode chegar em até R$ 7.085, como é por exemplo na Conspiração Filmes.

Diversas funções:

No Sindcine, Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Cinematográfica e do Audiovisual que representa os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Distrito Federal, há 4 tabelas de pisos salariais, divididas por tipos de projetos audiovisuais. As tabelas de piso são referentes a 6 horas diárias quando às filmagens forem realizadas em estúdio e de 8 horas diárias quando as filmagens forem realizadas em ambiente externo, e abordam diversas funções do meio audiovisual.

A Catho, empresa de recursos humanos, apresentou as médias salariais da área de cinema em 2015:

  • Coordenador de produção – R$ 6.773
  • Editor de texto- R$ 3.849
  • Produtor – R$ 2.518
  • Cinegrafista – R$ 1.767
  • Editor de vídeo – R$ 1.697
  • Engenheiro de som – R$ 1.697
  • Editor de produção – R$ 1.554
  • Operador de câmera – R$ 1.524
  • Operador de microfone – R$ 1.490
  • Contrarregra – R$ 1.480
  • Operador de equipamento – R$ 1.358
  • Assistente de produção – R$ 1.179
  • Operador de controle mestre – R$ 1.152
  • Operador de audiovisual – R$ 1.147
  • Editor de imagens – R$ 1.034

Importância e retorno do trabalho para o cliente

Nem sempre aquele job em potencial estará alinhado aos valores de mercado. É importante entender que cada produto audiovisual tem um valor diferente. Como dito antes, um vídeo publicitário para uma sapataria do bairro terá um retorno financeiro muito menor que o lançamento de um produto novo feito pela NIKE, e, consequentemente, terá uma importância menor ao cliente. Essa expectativa de retorno financeiro que o vídeo trará é o que o cliente considera como “valor”. Para ele, o vídeo não é definido pela câmera usada ou pelas técnicas de edição, e sim por seus resultados financeiros.

Uma estratégia de precificação que sempre uso em meus orçamentos é alinhá-los às expectativas de retorno do cliente. Se é um job de grande importância, que será distribuídos em muitas mídias e definirá o valor de uma empresa ou produto para o publico, o cliente terá grandes expectativas quanto a esse trabalho – e nós grandes responsabilidades, já que será de suma importância o máximo de dedicação durante a produção. Por outro lado, há clientes que querem usar vídeos em suas estratégias de marketing, mas não os consideram como um elemento chave, e esperam um retorno menor do mesmo. Proporcionalmente, para eles, o produto audiovisual que oferecemos tem menor valor.

Criar um equilíbrio entre o valor do seu trabalho e o valor que esse job terá para seu cliente garantirá uma boa remuneração e uma maior garantia de aprovação de orçamentos.

Custo vs Lucro

O lucro de um trabalho não é o preço cobrado do cliente pelo serviço. Para chegar ao valor real de lucro, temos que deduzir do valor bruto todos os custos diretamente relacionados a produção e os nossos gastos fixos durante o tempo que estivermos naquele projeto.

Todos nós temos um custo de produção e desenvolvimento, e isso independe da função que realizamos na equipe. Se você é editor, tem custos com hardware, softwares. Se é cinegrafista, tem custos com câmeras, lentes, seguro. Se é maquiadora, terá gastos com maquiagens – e assim por diante. Temos ainda os gastos com estudos, deslocamento, alimentação, impostos, entre outros.

Leve todos os seus gastos em consideração ao construir seu orçamento ou aceitar aquele trabalho fixo numa produtora. Isso é importante para evitar chegar no dia do pagamento com um saldo negativo entre o valor recebido e seus custos.

Para trabalho fixo fica fácil chegar no valor, basta calcular seus gastos fixos, somar os novos gastos referentes ao trabalho que irá aceitar e incluir o valor mínimo que gostaria de receber como de lucro ao mês. Esse será seu ponto de partida. Porém, se você é freelancer, essa tarefa é mais complexa, pois terá que diluir seus custos entre os serviços que presta por mês, e ainda terá que considerar todos os gastos extras de administrar uma empresa própria.

Uma estratégia muito útil para definir o valor de seu trabalho como freelancer é definindo um valor hora. Calcule qual o salário médio que gostaria de ter no mês e some todas as suas despesas nesse período, depois divida pelo número de horas que irá trabalhar no mês – algo próximo ao de uma jornada de trabalho normal de 144 horas/mês, e esse será o valor mínimo a ser cobrado por sua hora de trabalho. Caso vá montar um orçamento com valor fechado, estabeleça um número de horas que pretende ficar focado somente neste projeto e multiplique pelo seu valor hora.

Por exemplo:

  • Meta no mês: R$ 6.000,00
  • Custos fixos: R$ 2.500,00
  • Horas trabalhadas no mês: 120 (5 horas por dia, 5 dias na semana)
(6000 + 2500) / 120 = 70
  • Hora mínima: R$ 70,00
  • Horas focadas no projeto: 50 horas (inclua refações e possíveis horas extras)
70x50 = 3500

Orçamento final: R$ 3500,00

Se você tem dificuldades em fazer esses cálculos, a ferramenta gratuita “Quanto custa a sua hora” pode lhe ajudar a definir um valor. Nela são considerados seus gastos fixos como aluguel, hardwares, impostos, etc. E apesar de ser pensada para os trabalhos de programação e design, você pode customizá-la na ultima etapa, adaptando para o seu tipo de trabalho.

Marketing

Da mesma maneira que seus clientes estão lhe contratando para produzir vídeos publicitários e assim fortalecer suas marcas e aumentar os seus lucros, você também terá que fazer o seu marketing. Oferta e procura é lei no mercado de trabalho. Se há pouca procura dos nossos serviços, somos obrigados a baixar o nosso orçamento para garantir os clientes que aparecem, afinal, todos temos contas para pagar. Então, para manter o valor médio que gostaríamos de ganhar, precisamos trabalhar nossa imagem junto aos clientes em nosso mercado de trabalho.

Faça networking com outros profissionais do meio, construa parcerias, tenha um bom relacionamento com seus clientes, divulgue seus trabalhos em redes sociais, crie e promova conteúdos autorais. Quanto mais visível estiver seu trabalho, mais clientes lhe pedirão orçamento. E com o tempo, poderá escolher quais jobs estão alinhados com seu perfil e mantêm o valor médio estabelecido, e quais você irá passar para outros profissionais da área.

Conclusão

Para cobrar eficientemente não há uma única tabela ou um valor definitivo. Tudo depende de quem você é, qual o seu mercado e o valor que o trabalho orçado tem para o seu cliente. Podemos assim definir que o valor final depende de três critérios principais:

  • Quem é você: área de atuação, custos e metas;
  • Qual o mercado que você está: tipo de projeto, piso médio e ofertas disponíveis;
  • Qual o valor daquele trabalho para o cliente.

Agora, se você ainda está a procura de um caminho para ingressar na carreira de audiovisual, dê uma olhada na matéria de semana passada sobre como iniciar a sua jornada profissional em audiovisual.

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Coordenador de audiovisual. Trabalho com edição e pós produção. Adobe Certified Instructor em After Effects, Premiere, Illustrator, Lightroom, Photoshop, Video Specialist.

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