Caverna de Platão: a primeira sala de cinema

Para além da grande História do Cinema (com letra maiúscula) que considera os irmãos Lumière como “pais do Cinema”, graças à invenção do cinematógrafo, existe um movimento paralelo a essa narrativa que enxerga o cinema como uma manifestação anterior, buscando em mitos e ritos o que seria um pré-cinema. Arlindo Machado, pesquisador brasileiro, é um desses teóricos que dá esse passo para trás no livro Pré-cinema e pós-cinema para buscar o “cinema antes do cinema”.

Antes de tudo, é necessário lembrar que o cinema como técnica não é resultado imediato apenas dos esforços dos Lumière ao criar o cinematógrafo. Muito antes, já encontrávamos nos exercícios de decomposição de Eadweard Muybridge, nos experimentos de persistência retiniana, na lanterna mágica e até nos teatros de luz fragmentos que posteriormente seriam reunidos sistematicamente neste único aparelho. E anteriormente a todas essas manifestações fracionárias de um pré-cinema, Platão já havia descrito na Antiguidade o mecanismo imaginário da sala escura de projeção.

Para entrarmos nessa alegoria de Platão, vale a pena relembrar a relação que o homem pré-histórico tinha com a caverna quando realizava suas pinturas rupestres. Hoje, estudiosos do período magdalenense nos afirmam que nossos antepassados faziam sessões de “cinema” nessas cavernas. De acordo com a locomoção do observador e de sua chama, a luz emanada destacava texturas e cores nos desenhos em que ele se aproximava, ao mesmo tempo que outros se ocultavam nas sombras. E este movimento de caminhar diante dessas figuras criava por sua vez um movimento dessas imagens em relação ao observador, como uma animação.

O mito da caverna tem como objetivo estabelecer uma cisão entre a “representação do mundo sensível no homem” e a “consciência de uma realidade suprassensível” (nas palavras de Hegel). Para levar a discussão a diante, o vídeo abaixo apresenta ao leitor que não conhece o mito ou não teve um contato recente com esta alegoria um pequeno resumo do que é a caverna de Platão e suas implicações.

São inegáveis as relações que podem se estabelecer entre a caverna de Platão e o aparato cinematográfico, até mesmo em seu caráter físico: o fogo, que de trás da cabeça dos prisioneiros projeta as sombras, atua como o projetor de cinema, que faz incidir na tela imagens que tem origem da mesma posição.

E assim como essas sombras que são vistas pelos prisioneiros não são um reflexo perfeito do mundo, no cinema a imagens são também intencionalmente forjadas e manipuladas pretendendo a simulação e a ilusão do real. E o espectador, imóvel em sua cadeira, tal qual o prisioneiro, isola-se da realidade exterior e passa a preferir (ao menos durante a experiência cinematográfica) aquele mundo de ilusão.

E você, o que acha? Consegue encontrar mais semelhanças ou até mesmo diferenças entre o mito da caverna e a sala de cinema? Deixe nos comentários a sua opinião.

Referências

Livros:
A República, de Platão
Pré-cinema e pós-cinema, de Arlindo Machado

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Rafael Alessandro

Mestrando em Cinema e Artes do Vídeo, dedica-se à pesquisa e produção audiovisual.